Por Aluísio Azevedo (1897)
— Podes bramar à vontade!
— Um canalha! um valdevinos! um gatuno!
— Dize o que quiseres! Só me não podes chamar uma cousa, que é o que tu és!
E disse o nome.
Ambrosina estremeceu até à raiz dos cabelos. Olhou de frente para o Melo, e teve ímpetos de matálo; mas um rumor na escada a pôs em sobressalto. Os soldados iam penetrar na sala.
Com a subida dos praças, Laura acudiu de dentro e atirouse aflita nos braços da amiga.
Ambas romperam em soluços.
— Ah! Ah! já quebraram de força? Pois é aviar, que tenho mais que fazer!
— Mas, o que quer você que lhe faça, homem dos diabos?!
— Ora, filha! quero que me entregues a metade do que nos pertence!
— É melhor! aconselhou Laura. Dálhe a metade
— Mas é que já não tenho senão metade!... se a der, fico em completa miséria! Paguei dividas no Rio!...
Melo sorriu incredulamente.
— É um pouco dura a pílula! resmungou ele; mas, enfim, sujeitome a um descontozinho...
— Doulhe cinco contos de réis!
— Ora, vê bem se tenho algum T na testa!
— Pois é se quiser! Dou cinco! Se não quiser, proceda como entender!
E chegouse para a porta da sala.
— O camaradas! chamou ela.
— Os soldados mexeramse no corredor, como uma ninhada de bichos.
— Entrem para cá!
— Você o que vai fazer? perguntou o Melo.
— Entregarme... Já lhe disse que não posso dar mais de cinco contos de réis... Estou resolvida a deixarme prender!
E gritou para o corredor:
— Esperem aí, camaradas!
Ambrosina entregoulhe cinco contos de réis.
— Bem, dáme as tuas ordens!...
— Adeus, disse ela.
— Perguntalhe por meu pai, recomendou Laura.
Melo parou na porta e disse hesitando:
— Seu pai... morreu... minha menina. Boa noite!
XXXIII
PELA ESTRADA DA TIJUCA
Entretanto, Gabriel na Corte levava por esse tempo a vida mais estúpida e ociosa que se pode imaginar. O infeliz atirouse à desordem dos prazeres brutais como um soldado perdido se lança ao fogo do inimigo.
Nessa inglória batalha o sangue que derramava era o dinheiro, derramavao a jorros, indiferentemente, alheio às ávidas e obscuras bocas que o sugavam. E semelhante conduta encheuo logo, está claro, de falsos amigos, que rebentaram em torno da sua dissipação, com a gulosa espontaneidade de fungões inúteis e venenosos.
Difícil seria precisar o perfil de todas essas sombras libertinas; eram indivíduos sem caráter próprio, e sem o mais ligeiro traço original por onde pudessem ser distinguidos. Todo o cabedal das suas habilitações consistia em saberem fumar, beber, jogar e femear como ninguém. Para se não se dizerem vagabundos e filantes, intitulavamse boêmios, profanando esse poético nome, tão consagrado no meio artístico pela revolta do talento incompreendido ou ainda não vitorioso. Boêmios! como se fosse possível conceber a idéia de boêmia, sem a idéia de sacrifício e de pungente esforço na conquista do ideal e do belo!
Gabriel, coitado, bastante repugnância sentia da nova lama em que se chafurdava agora, mas. não tinha ânimo de romper com ela, porque só nela conseguia atordoarse um pouco contra os últimos desastres do seu maldito amor. Em menos de dois meses era já conhecido e tuteado em todos os restaurantes ruidosos, em todas as casa de jogo forte, clubes carnavalescos e caixas de teatro. Em torno do seu desperdício ardia em perene incensação esse risinho açucarado e servil, que o prestígio do dinheiro acende no rosto dos exploradores de todos os matizes, desde o grave e condecorado mercador comercial, até à delambida rameira de preço fixo e rótula franca.
As suas pândegas repetiamse cada vez mais violentas e com mais estrondo. Depois de uma ceia no "Fréres Provençaux", em que ele se viu em estado de não poder ir para casa, tomou aposentos nesse hotel, guardando a seu lado por companheira de desregramento, a mulher que o acaso lhe deu àquela noite, a Rita Beijoca, uma loura vinte anos mais velha que a mesma devassidão; e daí, para o mísero Gabriel, essa deplorável existência cor de goivo e cheirando a morte, bem conhecida de alguns moços ricos do Rio de Janeiro — acordar à uma da tarde, fazer duas de toilette e outras tantas de Rua do Ouvidor, vermutear até ao momento de se abrir na távola predileta a primeira banca de roleta, jantar às horas da ceia, e cear depois da meianoite.
A ausência de Gaspar favorecia toda essa desgraça. Pelo carnaval, ao domingo gordo, reuniramse, entre outros, nos aposentos de Gabriel, dois legítimos espécimes daqueles cogumelos de que há pouco falamos — o Costa Mendonça e o Juca Paiva, dois belos rapagões, que ninguém sabia donde tiravam os cabritos que vendiam.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.