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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Felizmente, o convento moribundo ergueu a fronte e lavou o pó da desmoralização que o estava conspurcando, restabeleceu a disciplina, e desde alguns anos, se faz notável pela ordem, regularidade e observância dos preceitos do seu patriarca.

Esta regeneração não é a vida certamente, não é uma brilhante esperança de futuro, é somente o esplendor da consciência ao pé da sepultura, é a agonia da resignação, e o cumprimento do dever em face da morte e, portanto, é porventura mais nobre ainda do que se fosse a expressão da confiança no futuro.

Os últimos frades capuchos que habitam o convento de S. Antônio do Rio de Janeiro fazem como os antigos romanos dos derradeiros tempos da República. Antes de receber o golpe da morte, compõem com todo o esmero os seus vestidos para caírem decentemente.

E fazem bem, procedendo assim.

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A Igreja de S. Pedro

I

SE OS NOSSOS clérigos seculares e os frades beneditinos e carmelitas, porventura, de algum modo se ressentiram de que, antes de ocupar-me com o templo especial dos primeiros e com o mosteiro e convento dos segundos, eu dirigisse em primeiro lugar não poucos passeios ao convento de S. Antônio ou dos nossos religiosos franciscanos, positivamente não têm razão para isso.

Creio que nenhum se queixou, nem se podia queixar, não só porque não há aqui matéria de preferência, pois que vou passeando e hei de continuar a passear sem regra nem sistema, como porque, se acaso se desse uma questão de precedência, eu me decidiria ainda a favor dos franciscanos.

Perguntam-me por quê? É muito simples a resposta.

Foi frei Henrique, um religioso franciscano, o primeiro que fez ouvir a palavra de Deus e que celebrou o santo sacrifício da missa em uma praia do Brasil, quando Pedro Álvares Cabral, desembarcando em Porto Seguro, rendia graças ao Altíssimo pelo descobrimento da nova terra que ele chamou então ilha de Vera Cruz.

Assim pois, antes dos clérigos seculares que acompanharam os primeiros donatários de capitanias hereditárias do Brasil, já tinha aparecido e deixado a lembrança de seu nome nesta bela parte da América meridional um frade da ordem seráfica. E o gentio que foi encontrado pelos portugueses, quarenta e nove anos antes de ter visto a roupeta do jesuíta, havia já contemplado o vasto e negro hábito do franciscano.

Mas realmente não foi esta consideração histórica que me determinou a visitar em primeiro lugar o convento de S. Antônio. Visitei-o então pela mesma razão por que hoje vou visitar a igreja de S. Pedro, isto é, porque devo, quero e hei de passear por onde me parecer, e nos meus passeios demorar-me um pouco onde houver coisas que referir e recordações que avivar.

Vamos, pois, à igreja de S. Pedro.

Quando estudastes geometria, meus bons amigos, aprendestes certamente em uma definição muito cediça que “linha reta é o caminho mais curto de um ponto a outro”.

Declaro que desconfio da verdade desta definição, porque, sem dúvida alguma, a experiência já tem demonstrado que o caminho mais curto de um ponto a outro nem sempre é pela linha reta, ou então teremos de reconhecer que se chega muitas vezes mais depressa a um ponto dado, desprezando as retas e preferindo as curvas.

Os políticos são, neste caso, decididos inimigos dos geômetras, e apreciam os caminhos mais curtos de um modo diverso. Julgam que as retas ou são cheias de perigos que podem demorar as viagens, ou terrivelmente maçantes pelas conveniências e considerações que se devem respeitar no caminho, e de ordinário preferem seguir as curvas que os livram de muitos embaraços, e enganam assim os tolos, que os supõem viajando para o norte, quando eles têm os olhos fitos no sul.

A linha reta dos geômetras é, portanto, uma famosa peta, ou, como já disse um espirituoso escritor francês, linha reta é coisa que não existe.

Estudemos o caso também conosco.

Ficamos ultimamente no convento de S. Antônio, e tendo agora de dirigir-nos à igreja de S. Pedro, que devemos fazer para chegar mais depressa àquele ponto?

Observando a definição dos geômetras, procuraríamos seguir a linha mais reta possível e, portanto, desceríamos pela escadaria da ordem terceira de S. Francisco e, atravessando o largo da Carioca, iríamos pela rua da Vala até à de S. Pedro, por onde chegaríamos enfim à igreja.

Pois bem. Afirmo-vos que não é esse o caminho mais curto que se nos oferece, e declaro-vos que, para chegarmos mais depressa, deixando o morro de S. Antônio, havemos de ir à igreja de S. José, da igreja de S. José voltaremos à de Nossa Senhora do Parto, e daí então subiremos pela rua dos Ourives até à igreja de S. Pedro.

(continua...)

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