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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

 A confissão arrancada a Miguel transfigurou Linda como por encanto. Sua expressão melancólica embebeu-se de um júbilo sereno como o alvor da manhã; desprendeu-se o gesto da timidez que dantes a atava, e tomou inflexões ternas e apaixonadas. De toda sua pessoa manavam santos eflúvios do amor feliz, que lhe teciam de luz e perfume uma auréola celeste. 

 Miguel embebeu-se na adoração dessa beleza, que se revelava pela primeira vez à sua alma; e o enlevo durava ainda no momento em que se trocava com Linda frases truncadas. 

 A moça havia tirado do seio o cravo branco e respirava-lhe o aroma, roçando-o pelos lábios. 

 - Não disse o que significa? insistiu Miguel. 

 - O senhor sabe. 

 - Eu não! respondeu o moço com um sorriso. 

 - Sabe sim! 

 Houve uma pequena pausa, durante a qual a palavra adejou nos lábios de Miguel, enquanto na alma de Linda já ressoava a sua doce melodia. 

 - Casamento? balbuciou uma voz submissa. 

 Linda velou-se em uma nuvem de rubor. Com a confusão, naturalmente escapou-lhe a flor, que Miguel apanhou, e quis restituir; mas a mão trêmula da moça não recebeu senão a doce pressão. 

 - Quebrou-se o talo! disse ela rapidamente. 

 Era um motivo para rejeitar a flor, que não podia mais prender no decote, e o pretexto para dá-la ao moço em penhor de sua ternura. Fechando na palma o cravo, Miguel levou-o aos lábios e o beijou com efusão. 

 Berta, que a distância contemplava toda a cena com uma doce tinta de melancolia, sentiu arfar-lhe o seio, estremecido como a rola em seu ninho. Mas a mão comprimindoo rápida, sufocou o turture queixume que se desprendia em um suspiro. 

 

XVIII 

Revelação 

Berta erguera-se, relanceando em torno um olhar sôfrego. 

O que procurava ela? 

 Um brinco, um prazer, uma alegria, onde se refugiasse da tristeza que ia apoderar-se de sua alma. Mas, no meio daquela festa que a envolvia, ela sempre tão jovial, ela em cujo lábio o sorriso borbulhava como onda perene, não encontrou um folguedo que a atraísse. 

 Descobrira, porém, acocorado contra o ressalto do alicerce, Brás, que roia um sabugo de milho assado, cujo grão já tinha devorado. Nessa ocupação, esgrimindo os queixos e coaxando a língua, não desprendia ele os olhos do rosto de Berta, cuja melancolia se refletia na obscuridade de sua alma, como se reflete na face da terra a sombra da nuvem que intercepta os raios do sol. 

 Chegou-se a menina pressurosa para junto do idiota; o conforto, que não encontrara nas folias que a cercavam, ali estava na afeição generosa e compassiva que lhe inspirava aquela mísera criatura. O desânimo a invadira, acreditando estar só no mundo; mas já não o sentia, pois sua alma tinha ainda uma dedicação para a ocupar, e sacrifícios em que derramasse os mananciais inexauríveis de sua bondade e ternura. 

 Afagou o idiota com as palavras meigas, de que seu lábio tinha o condão; e ficou ao seu lado para o consolar do isolamento em que o deixavam. Já que não podia caber àquele ente infeliz outro quinhão nessa noite de tamanho regozijo para todos, ao menos lhe reservava ela seu carinho. 

 Não se teve, porém, a menina que não volvesse outra vez os olhos para o lindo grupo formado pelos dois namorados. Linda, com os estremecimentos íntimos da planta que a manhã orvalha, e a fronte de leve pendida, embebia-se na palavra apaixonada de Miguel, que reclinava-se por detrás da haste da palmeira para falar-lhe ao ouvido. 

 De novo aflou o seio de Berta com um suspiro, que ela, como ao primeiro, recalcou; mas já não pode desprender o pensamento das cismas em que se enleara, a ponto que não viu o Brás esgueirar-se pela sombra e sumir-se. 

 Que passava na alma da menina? 

 Não fora ela quem aproximara Miguel de Linda, e com admirável paciência durante meses urdira a teia delicada que envolvia os dois namorados? 

 Não era obra sua esse amor, que ela própria embalara como um filho querido, nutrindoo de suas carícias, enfeitando-o com seus encantos, vivendo e sorrindo-se nele? 

 Como agora, obtido o êxito de seus desvelos incessantes, em vez da satisfação de ver realizado um voto querido, confrangia-se-lhe o coração com o quadro suave do mútuo afeto, que ainda naquela manhã luzia-lhe na imaginação qual doce esperança? 

 Parecerá excêntrica e até incompreensível esta situação da alma de Berta naquele instante: entretanto nada mais lógico e natural. 

 Tinha a menina por Miguel uma dessas afeições de infância, puras, calmas e serenas, primeiros botões, dos quais ninguém sabe que flor vai sair, se uma doce amizade, se uma paixão ardente. 

(continua...)

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