Por José de Alencar (1872)
- Já, papai, disse com veemência; infelizmente já; mas aquele a quem amo, não me pode amar.
- Ora! fez o Soares com o sorriso de um homem que sabe quanto pode.
Guida abanou a cabeça:
- Não, é impossível! Todo o dinheiro do mundo não bastaria para comprar-me a felicidade.
- Quem é ele? perguntou Soares, sentindo apoderar-se de si o desânimo da filha.
Contou Guida ao pai a simples história de seu amor, botão que desabrochara recentemente em flor, ainda impregnado de vivos perfumes.
- Estava resolvida a casar-me já para seu sossego e tranqüilidade, papai; a saudade, que eu teria de minha vida de solteira, me havia de pagar com usura e felicidade de o ver contente.
- Guida! exclamou o velho enternecendo-se.
- Mas com esta afeição, não posso, papai; o sacrifício excede minhas forças. Parece-me que me insultaria a mim mesma, casando-me com outro homem. Seria uma degradação...
- Não falemos mais disso, minha filha!
- Deixe-me esquecer, deixe-me sufocar esse coração que eu julgava morto, e que reanimou-se por meu mal. Daqui a um ano terá passado.
- Tudo o que tu quiseres, respondeu Soares, contanto que não fiques triste. Brinca, diverte-te bem. Inventa novas travessuras. Ainda que me custem muito dinheiro, muito... Para que prestará ele, se não for para te distrair? - Há uma coisa que, eu sinto, me havia de fazer muito bem, disse Guida timidamente.
- O que é?
- Ele é pobre... Sua felicidade depende de vinte contos... Eu daria meus alfinetes...
- Criança. Não estou eu aqui? A dificuldade, desconfio que será obter dele que aceite...
- É verdade.
Nesse momento parou um carro ao portão; e com pouco apareceram D. Guilhermina e o marido.
- Havemos de achar um meio; pensa tu de teu lado, que eu não me descuidarei.
O banqueiro foi ao encontro do conselheiro e subiu com ele à varanda, enquanto D. Guilhermina passeava no jardim com Guida.
XXVIII
Depois de algumas voltas pelo jardim, as duas amigas sentaram-se em um banco de grama, próximo ao gradil da rua, onde enramava-se uma trepadeira de flores escarlates.
Houve na conversa breve pausa. D. Guilhermina espreitava disfarçadamente pelos claros do gradil; e Guida com o sobrolho levemente rugado parecia refletir observando distraída o gesto da amiga.
- Sabe, D. Guilhermina, esse moço... o Dr. Nunes..., disse Guida com indiferença.
- O amigo do Fábio?
- Está justo para se casar com uma prima em São Paulo.
- E anda por aqui divertindo-se?
- Que injustiça! Veio na esperança de ganhar alguma coisa para pagar as dívidas da mãe, e casar-se então; porque a noiva é tão pobre como ele.
- Coitadinha!
- E não é muito dinheiro de que precisam. Vinte contos apenas!
- Não é qualquer bagatela, Guida!
- Ora! Você não gasta mais do que isso por ano?
- Sim; mas em minha posição!...
- Pois esse dinheiro que nós deitamos fora em vestidos, jóias e luxo durante um ou dois anos, bastava para fazer a felicidade de tanta gente e por toda a vida.
- Que gente?
- O Ricardo tem uma irmã, D. Luisinha que também está para casar com o amigo...
Guida sentindo a inquisição suspeitosa do olhar de D. Guilhermina, disfarçou a colher uma flor e concluiu:
- Com o Fábio!
- Ah!... Quem lhe disse? exclamou a mulher do Barros mordendo os beiços.
- O Dr. Nunes!
- Não sabia que estava tão íntimo com você, Guida!
- Eu o estimo pelas suas qualidades e sisudez.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.