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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Sr. Cândido, foi bem triste a última vez que nos vimos; foi em uma noite de prazer e de dor; noite em que na mesma casa e ao mesmo tempo soavam cantos alegres e corriam lágrimas amargas.

– Já passou tudo isso... esqueçamos.

– Não; lembremos antes, mancebo. Nessa noite uma intriga foi forjada, e a calúnia venceu então a verdade.

– Senhor... para que falar nisso?

– Uma mulher caluniou a outra mulher. As portas do “Céu cor-de-rosa” lhe foram fechadas em nome da “Bela Órfã”... A mulher que intrigava, depois de lançar mortal veneno em seu coração, deixou-o só no jardim, e eu apareci então... e o que lhe disse? lembra-se?

– Não; tudo esqueci... o teatro, o drama, as personagens... tudo está esquecido; nem quero outra vez lembra-me.

– Oh! mas é preciso lembrar-se! ouça pois: eu apareci então, e disse: “aquela mulher mentiu!”

– Não mentiu! respondeu com força o mancebo.

– Foi isso mesmo o que me disse, sr. Cândido; mas eu jurei a mim mesmo provar-lhe que a “Bela Órfã” fora caluniada, e que o senhor ofendia a pureza, a virtude de uma inocente moça sustentando uma calúnia.

– Ah! Sr. Rodrigues... murmurou meio comovido o moço.

– Eu jurei que havia de confundi-lo com a verdade, e de castigá-lo com o arrependimento...

– Mas para quê?...

– Para quê? para que justiça fosse feita a uma interessante virgem; para que bálsamo consolador fosse derramado no coração de um desgraçado.

– E quem é esse desgraçado?

– É o senhor.

– Tem razão; eu o sou.

– Eu quero que a esperança amanheça de novo em sua alma... que arrependida sua alma se ajoelhe ante a imagem da mulher que amava tanto...

– Senhor... basta.

– Que o seu arrependimento e a sua esperança façam de novo falar a sua alma; que outra vez de joelhos ante a imagem da bela virgem a sua alma exclame com ardor... – eu te amo!

– Senhor, senhor, é preciso que eu lhe diga que considero meu inimigo aquele que me fala de amor?

– É uma loucura.

– Que o fogo da vergonha ainda queima meu rosto, quando me lembro do que comigo se passou nessa horrível noite?

– Mas o bafo da virgem há de apagar esse fogo.

– Senhor! nem mais uma palavra sobre ela.

– E as provas de sua inocência?

– Eu não as quero.

– Para condená-la sempre?...

– Não a condeno.

– E o amor que lhe tinha?...

– Eu amo a minha mãe.

– E o amor dessa pobre virgem?...

– Senhor!

– Esse amor angélico?! esse perfume de flor que se desabrocha?... esse amor...

– Basta... é demais.

– Não quer ouvir-me então?...

– Dispense-me disso, sr. Rodrigues.

– Não me acredita?.

– Não.

– E se eu provar o que digo?...

– É inútil.

– Embora, eu o provarei.

– Mas com que fim?... que lhe importa a minha desgraça ou a minha felicidade?...

O velho olhou fixamente para Cândido e disse com voz grave e pausada:

– Pode ser que me importe mais do que pensa. Quem sabe se o seu passado, que é tão escuro para todos, não é bem claro para mim?...

– Oh!... exclamou Cândido: fale pois!... eu lhe escuto...

– É tarde; eu já devia ter voltado.

– Mas...

– Eu lhe deixo estes papéis, sr. Cândido; peço que os leia... e que os guarde.

O velho Rodrigues tirou então do bolso algumas folhas de papel e as deitou sobre a mesa.

– O que contêm estes papéis?... perguntou Cândido com viva curiosidade.

– Uma história.

– A minha história?...

– Também é sua.

O velho retirou-se vagarosamente, e Cândido foi buscar uma luz, e abrindo a primeira página daqueles papéis leu:

HISTÓRIA DO MEU AMOR

CAPÍTULO XXX

UMA HORA DE LEITURA

DEVEREI eu ler estes papéis?... falou Cândido consigo mesmo. Não haverá aí veneno espalhado nessas páginas?... não será fraqueza ceder a um desejo que não passa de pueril curiosidade?... Não! estou determinado; pode rolar um século sobre essa mesa e não os hei de ler nunca.

Mas ele não podia arrancar os olhos dos papéis que lhe deixara o velho, e passados alguns minutos pensou já de outro modo; pensou assim:

– É que também, se eu os não ler, podem julgar que desconfio de mim mesmo... que tenho medo de amar ainda... que não sei triunfar de uma paixão de dois dias... é isso; podem julgá-lo. Pois eu lerei... mas hoje não; mostrarei a minha indiferença não lendo hoje; provarei que nada receio lendo amanhã; estou determinado.

E passado ainda um certo espaço, o mancebo mudou outra vez de resolução, e disse consigo:

– Mas isto, sim, é que é puerilidade! ler amanhã ou hoje, é sempre acabar por ler; e que tem isso?... que impressão me pode causar esta leitura?... e que me importa o juízo que de mim quiserem fazer?... eu sou pobre... eu sou só... eu sou portanto bem livre.

E abrindo a primeira página começou a ler.

(continua...)

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