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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Todavia, Manduca, apesar de... (digamos aqui bem em segredo da Sr.ª D. Tomásia) apesar de ser tolo, tinha sido por tal maneira recebido por Honorina, que não lhe restava a mais leve dúvida da indiferença da moça. Em tais circunstâncias, e com tão amarga certeza, o rapaz torturou seu espírito por uma semana inteira, parafusando na causa por que tão mal-atendido fora. Sua mãe lhe havia assegurado tantas mil vezes que ele era um mocetão de encher o olho, que a despeito de três espelhos que tinha em seu quarto, Manduca não pôde atribuir a crueldade de Honorina à falta de encantos físicos de sua parte.

Agora, a respeito de encantos de espírito, Manduca era o primeiro a dar a si próprio parabéns pela abundância que deles possuía e gastava; outra vez, aqui para nós, neste mundo cheio de gente, ainda se não achou um tolo que se não julgasse avisado.

Portanto, não lhe faltava nem beleza, nem espírito; o que era pois?... ah!... finalmente no cabo de sete dias a inteligência de Manduca deu com a causa de sua má fortuna: com toda a modéstia de que pôde valer-se, o filho de Tomásia reconheceu que não representava um grande papel na sociedade; enfim, que não era fidalgo, nem homem proeminente.

E eis o nosso Manduca a resolver, durante outros sete dias, um problema ainda mais difícil: — como se havia de tornar grande coisa em pouco tempo?...

Manduca lembrou-se da literatura...

E raciocinou:

Em um mundo todo voltado de pernas para o ar pode-se tirar algum proveito dos pés; mas da cabeça?!... ninguém mais se lembra de tal: isso de ganhar amor pelas letras já é muito antigo; foi idéia do século das trevas; está absolutamente reprovado por toda a moça que sabe executar, mesmo fora de compasso, um simples chassé croisé huit; ninguém pode mais ser amado pelas letras diante do encantamento das tretas... olhem bem, que era o tolo do Manduca que pensava assim.

Desprezado esse primeiro caminho que se lhe apresentou, veio-lhe ainda a idéia da carreira das armas; mas também já se não encanta as belas com o brilhantismo da glória e a fama de altas façanhas; as justas e os torneios lá se foram; tudo agora é mais cômodo, e menos perigoso... e, além disso, Manduca sabia que não lhe dariam patente, pelo menos de coronel; e ele não era homem que recebesse ordens aí de qualquer cabo-de-esquadra.

Mas no último de outros sete dias a brilhante inteligência de Manduca deu à luz a resolução do novo problema: estava conhecida e aberta a estrada da felicidade... a política!...

Eis a primeira e única ocasião em que Manduca mostrou em toda a sua longa vida ter algum discernimento.

E o que há aí de tão proveitoso, como um homem fazer-se político?... a política é para a maior parte um jogo que nunca se perde: quando não se ganha hoje, tem-se um bocadinho de paciência, e amanhã lucra-se por dois dias... ora, confessemos que Manduca tinha razão.

E também o que há aí de tão fácil como ser político?... a política, que pode ser matéria muito espinhosa e intrincada em todo o mundo, reduz-se em certo país, que Manduca e nós conhecemos bem, a muito pouca coisa. O essencial é o seguinte: quando se está debaixo, bramese diante do público, e pede-se nas ante-salas; e quando se está de cima, choraminga-se aos ouvidos do povo, e zomba-se dele no gabinete; e finalmente quer debaixo, quer de cima, manejase uma eleiçãozinha, escondendo-se primeiro, bem no fundo da gaveta, certos papéis escritos, a que se tem dado o nome de constituição e leis... ora, confessemos, confessemos outra vez que Manduca tinha razão.

Por conseqüência, o rapaz determinou-se a tentar ventura na lisonjeira estrada das grandezas, honras, poder e riquezas: mas por onde começar?... a que porta bater?... qual o primeiro passo a dar?...

Quem pensar que semelhante consideração seria uma terceira dificuldade, um novo problema a resolver para Manduca, engana-se redondamente: a cabeça mais desmiolada, o homem mais parvo do mundo, que entre nós se determinasse a seguir a carreira política, e procurasse o primeiro degrau para pôr sobre ele o pé, instintivamente lembrava-se da assembléia provincial.

Aí, apesar das teimosas e desprezíveis discussões das necessidades materiais da província, um homem faz por habilitar-se; tratando-se de um chafariz, enxertar-se um discurso sobre política geral... discutindo-se os melhores meios de esgotamento, vem mesmo a apelo uma longa dissertação sobre as mais intricadas questões financeiras; e, enfim, na discussão de uma ponte, pode um orador de habilidade entrar pela pasta dos negócios estrangeiros adentro, posto que anda ela quase sempre fechada com o muito cômodo e abençoado selo das questões pendentes. Manduca, que se achava com jeito para orador, pesou todas estas reflexões e, assentando de pedra e cal que devia ser deputado provincial, como visse que as eleições batiam à porta, no dia em que Brás-mimoso se dispôs a ir à casa de Venâncio, levantou-se ele pronto para meter mãos à obra, e apenas se achou na sala, declarou o propósito em que estava a seus extremosos pais.

Pouco faltou para que Tomásia perdesse o juízo de alegria, ouvindo a determinação de seu filho.

— Sempre te conheci, exclamou ela, com inspirações de gênio! Manuelzinho, saíste à tua mãe!

(continua...)

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