Por Aluísio Azevedo (1895)
A nova existência do amigo como que o fizera ainda mais triste e mais só. Dantes tinham os dois sobeja ocasião para estar juntos, para se falarem, para trocarem entre si as suas confidencias; e agora mal se viam uma vez ou outra, casualmente, porque André insistia no escrúpulo de desfear o radiante aspecto daquelas salas, carregando para lá com o seu vulto desalinhado e feio. À noite, quando apareciam visitas, o que era muito freqüente, não havia meio de arrancá-lo do sótão.
Demais, para que iludir-se? Teobaldo não fazia grande empenho em apresentá-lo aos seus amigos, chegava até em presença destes a tratá-lo com uma certa frieza. - interesse em obrigá-lo a aceitar um canto de sua casa, não passava de um dos muitos rompantes de generosidade, que ele às vezes tinha quase que inconscientemente, e dos quais se arrependia logo sem nunca se queixar de si, mas do seu obsequiado.
Isto não quer dizer que Teobaldo agora estimava menos o Coruja; ao contrário - jamais intimamente o colocou tão alto no seu conceito; apenas, como homem vaidoso, não queria incorrer no desagrado de seus sequazes impondo-lhes um; tipão daquela ordem. A borboleta, desde que lhe saem as asas, não gosta de ir ter com as antigas companheiras que se arrastam no chão.
- Não é dele a culpa... considerava André, sempre disposto a perdoar. - A borboleta precisa de sol, precisa de flores... Quem tem asas - voa; quem as não tem fica por terra e deve julgar-se muito feliz em não ser logo esmagado por um pé.
E, a contragosto, fazia-se mais e mais retirado e macambúzio.
Ao lado de Branca então chegara o seu acanhamento a causar dó; quando a formosa senhora lhe dirigia a palavra, ele parecia ficar ainda mais selvagem, mais desajeitado, atarantava-se, fazia-se estúpido, não encontrava posição defronte daquele primor de beleza, e conseguia apenas uivar algumas vozes confusas e quase sem nexo.
E no entanto sentia por ela um afeto extremamente respeitoso, uma espécie de adoração humilde e tácita; quando Branca passava por junto dele, Coruja reprimia a respiração, contraía-se todo, como se receasse macular o ambiente que ela respirava; e só se animava a encará-la enquanto a tinha distraída ou de costas, e isso com um profundo olhar de terna veneração.
- Achas-la bonita, hein? perguntou-lhe uma vez Teobaldo, batendo-lhe no ombro.
- É uma imagem... respondeu André.
- Entretanto, ela se queixa de ti..
- De mim?
- E verdade, desconfia de que não te caiu em graça.
- Ora essa!...
- Supõe que antipatizas com ela...
- Eu?...
- Sim e, vamos lá, coitada, não deixa de ter o seu bocado de razão: quase nunca lhe dás uma palavra e, quando acontece te achares ao lado dela, ficas por tal modo impaciente, que a pobrezinha receia ser importuna e foge.
- Bem sabes que infelizmente esse é o meu feitio; sou assim com todo o mundo, à exceção de ti.
- Sim, mas o que eu não admito justamente é que, para ti, minha mulher faça parte de todo o mundo! Quero que ela participe da exceção aberta para mim, que a trates pelo modo por que me tratas.
- Não é por falta de vontade, crê; mas não está em minhas mãos! - Procuro ser amável, ser comunicativo, e as palavras gelam-se-me na garganta, o pensamento estaca e uma cadeia de chumbo enleia-me todo, tirando-me até os movimentos; então sinto-me ridículo, arrependo-me de me haver mostrado; suo, lateja-me o coração e em tais momentos daria o resto de minha vida para sair de semelhante apuro. Outras vezes quero aproximar-me dela, dizer-lhe alguma coisa que lhe faça compreender o quanto a estimo, mas de tal modo me falece a coragem, que não consigo fazer um passo, nem encontro uma palavra para lhe dar. - És um tipo!
- Sou um asno! Ah! que se eu tivesse a tua presença de espírito, as tuas maneiras, os teus recursos.
- Com esse gênio, serias ainda mais infeliz!
- Não, seria ao menos compreendido; porque não sei que diabo tenho eu comigo, que ninguém além de ti percebe as minhas intenções ou acredita nos meus atos. Às vezes, quero ser meigo, quero mostrar que não estou contrariado, quero manifestar a minha simpatia ou o meu entusiasmo por alguém ou por alguma coisa e, em vez disso, consigo apenas convencer a todos de que estou aborrecido e que só desejo que ninguém se aproxime de mim, que não me fale, que não me incomode! E, todavia, não sou mau e todo o meu empenho é ser melhor do que sou.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.