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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Uma vez que falei nas defesas de conclusões, quero lembrar, por curiosidade ao menos, que em outra dessas solenidades e no mesmo convento, um frade, já padre-mestre, frei Fernando de S. José de Meneses, sustentou vigorosamente uma tese contra a infalibilidade do papa. Concluído o ato, o vice-rei Luís de Vasconcelos, que estava presente, mandou trancar no cárcere o padre-mestre. A ordem foi imediatamente cumprida; mas frei Fernando, auxiliado pelos religiosos, conseguiu evadir-se. Fugiu para Lisboa, onde alcançou o seu perdão, e voltou algum tempo depois, firme, porém, na sua opinião, apesar de ser frade.

O convento de S. Antônio recorda-se ainda com saudade de frei Antônio de São Elias, que era um grande músico e, sobretudo, um organista do mais elevado merecimento. Alguns dos nossos velhos falam com entusiasmo de São Elias. Quando, em 1808, a família real portuguesa chegou ao Brasil, e começaram as festas suntuosas da capela real, foi esse frade muitas vezes chamado para tocar ali, e os maiores entendedores da matéria não pouparam elogios ao rei dos organistas, como o chamava o padre José Maurício.

Uma vez, foi frei Antônio de São Elias encarregado pelo guardião do convento de compor umas matinas para a festa da ressurreição, que devia ter lugar no convento, no dia de Páscoa, às duas horas da noite. São Elias obedeceu, e às cinco horas da tarde do sábado da Aleluia, reuniu no coro os religiosos músicos para ensaiar as suas matinas. Mas, ou fosse erro do compositor ou dos executores, notou-se tal desacordo em uma fuga, que alguns rivais de São Elias começaram a sorrir. Este, irritado, fecha o orgão, arrebata as músicas, foge com elas e rasga-as.

E às duas horas da madrugada do dia seguinte, cantavam-se outras matinas, compostas de improviso por frei Francisco de Santa Eulália, que teve a satisfação de as ver acompanhar no orgão pelo próprio São Elias.

A partitura dessas matinas ainda se conserva no convento.

Entre os muitos cantochonistas que teve o convento, distinguiu-se sobre todos frei João de Santa Clara Pinto. Suas composições, que os capuchos guardam com amor, são, ao que dizem, modelos de gosto e de harmonia. E as últimas que saíram da sua pena bem inspirada, três hinos para a festa de S. Antônio, passam entre os mestres por admiráveis.

Frei João de Santa Clara Pinto e frei Francisco de Santa Eulália eram naturais do Rio de Janeiro.

A comunidade dos capuchos, pobre, como requer o seu instituto, era outrora tão auxiliada pelas esmolas que espontaneamente lhe vinham trazer os fiéis e pelas que colhiam os religiosos espalhados pelo interior do Rio de Janeiro, que lhe sobravam os meios para acudir aos desfavorecidos da fortuna.

Além da refeição quotidiana que muitos pobres recebiam na portaria, à hora do refeitório, havia uma mesa particular onde outros pobres, por assim dizer, adotados pelo convento, vinham jantar à mesma hora, sem que alguém o soubesse, alem do guardião e do leigo empregado nesse serviço.

Muitas famílias necessitadas recebiam também auxílios do convento, que no princípio de cada mês mandava levar-lhes boa provisão de diversos gêneros alimentícios. Segundo notas particulares existentes no convento, ainda em 1827, sendo guardião o padre-mestre frei Joaquim de S. Jerônimo Sá, cinqüenta famílias indigentes recebiam esse grande benefício.

Hoje não se pode observar o mesmo fato, pelo menos com o desenvolvimento e a extensão do tempo passado. As circunstâncias são outras, são diversas. Ao esplendor do passado seguiu-se uma triste decadência.

Agora as minhas duas palavras em despedida.

Ninguém se lembrará de acusar-me de má vontade para o convento de S. Antônio da cidade do Rio de Janeiro.

Sou amigo de não poucos religiosos, tanto franciscanos como de outras Ordens, mas faltaria à verdade, se fizesse protestos de amor pelas instituições monásticas.

Não negarei jamais os serviços relevantes que em outros tempos prestaram à humanidade muitos conventos e diversas Ordens.

Mas todas as instituições têm seu tempo, todas florescem mais ou menos, depois envelhecem e tornam-se anacrônicas, quando não se reformam ou não se transformam, conforme as exigências da civilização e do progresso.

Se erro pensando assim, peço a Deus que me perdoe e que me ilumine.

Não sou, portanto, favorável às ordens monásticas. Tenho, porém, não direi que é pela ordem dos franciscanos, mas pelo convento de S. Antônio da cidade do Rio de Janeiro, uma espécie de veneração que provém talvez das recordações do passado.

Não posso olhar para esse convento que não me venha logo encantar a lembrança daquelas gloriosas recordações, daqueles pregadores inspirados de que se ufanam o Rio de Janeiro e todo o Brasil, daqueles eloqüentes frades que souberam pregar o Evangelho e a liberdade – a lei de Cristo, enfim.

Doeu-me, por isso, extremamente, observar em uma época não muito antiga, pois que não fica aquém de vinte anos a indisciplina e um lamentável desregramento laborando funestamente no convento, onde vivia ainda, embora cego, o representante das glórias do passado dos capuchos fluminenses, o célebre Mont’Alverne.

Doía-me ver a miséria ao pé do túmulo.

(continua...)

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