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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

Vestiu-se a moça rapidamente, com a costumada simplicidade, mas sem o esmero costumado, para o qual não havia tempo. Entretanto nunca o seu bom gosto combinou melhor o traje, nem este realçou-lhe tanto a beleza nativa, como naquela tarde. 

Mas o encanto desse vestuário não estava no delicado padrão do simples vestido de organdi, e na forma elegante e original do penteado. O que a ornava era sobretudo o brilho suave dos olhos, a meiga auréola da fronte, o sorriso delicioso dos lábios, e a graça inefável do gesto. 

Essa beleza até agora mimosa, gentil e garrida, tinha trocado o seu lirismo pela brilhante epopéia do coração. Já não é o colibri borboleteando entre as flores, ou o raio de luz irisando-se na gota de orvalho. Agora é a mulher; é o anjo, que agita as asas de fogo, com os olhos no céu e a voragem a seus pés. 

- Como estás bonita! exclamou Soares vendo a filha. 

- Ela sempre foi! disse D. Paulina. 

- Sempre; mas hoje!... 

- Foi o passeio! disse Guida com um sorriso, que era um enlevo de graça. 

- O passeio... repetiu o banqueiro. Não duvido. 

E fitou o olhar vivo e perscrutador da filha, cujo enleio velou-a com uma encantadora expressão de melindre que lhe dava um encanto irresistível. 

Depois do jantar desceu Guida ao jardim, e percorrendo lentamente as alamedas, seus olhos acariciavam as flores, que dantes a deleitavam apenas como as fitas e outros enfeites. 

Lembrou-se da flor rústica da Tijuca, a que Ricardo dera o nome de “Sonhos d’ouro”. Havia o jardineiro trazido mudas, que arranjara em um alegrete, ao lado da casa. Não tivera a moça ainda a curiosidade de ver a planta, depois da sua volta a Botafogo. 

Nessa tarde, porém, apertaram-lhe as saudades. Não tinha flores o arbusto, que só em novembro cobre-se de botões; alisou-lhe a moça com a mão as folhas glabras, afagou-as com o olhar; e tamanha era a efusão de ternura, que teve ímpetos de beijá-las, e arrancando uma, colou-a aos lábios ardentes. 

Pungiu-lhe o coração uma dor viva e intensa, como o cravar de uma lâmina. Recordou-se da primeira vez que vira Ricardo; e compreendeu então o arroubo e veemência de sua alma na contemplação da florinha agreste.

- Ele amava!... balbuciou Guida. Lembrava-se de Bela!... 

E invejou a felicidade de sua rival, sem contudo querer-lhe mal. Ao contrário, sentia curiosidade de conhecê-la; e acreditava que havia de Ter-lhe amizade. 

Durante alguns dias viveu Guida no embevecimento de sua paixão. Sentava-se ao piano, e escolhia as músicas ternas e sentimentais, que tocava com muita alma e expressão. As notas, que tantas vezes tinham ressoado a seus ouvidos apenas como agradável harmonia, feriam-lhe agora as cordas mais íntimas, e percutiam todo seu organismo, como uma vibração elétrica. 

Outras vezes esquecia-se a cismar, com os olhos engolfados no azul do céu, onde rutilavam as primeiras estrelas; ou enlevada a contemplar uma flor, cujos perfumes derramavam-se dentro d’alma com uma fragrância celeste e cujo matiz aveludado afagava-lhe a vista, como um beijo da luz. 

Não raro se tingiam esses devaneios de uma sombra de melancolia, quando o espírito da moça voltava-se para o futuro e o via tão esplêndido submergir-se em um abismo inexorável, o impossível. 

Mas amava, sentia-se viver no seu amor; e o pensamento, recolhendo-se a esse limbo suave de sua nova existência, esquecia o mundo, o tempo, a sorte, para embeber-se de felicidade e exaurir-se nesse gozo supremo da paixão. Foi Soares que a arrancou a esse longo êxtase. 

Uma tarde que ela cismava no jardim, o pai viu-a da janela, e foi-lhe ao encontro com ar brincão: 

- Ai, minha sonsinha!... Temos novidade, hem! E não me queres dizer? 

- O quê, papai? perguntou Guida arrancada à sua cogitação. 

- Como disfarça! Pediste um mês para escolher; mas creio que estes olhinhos andaram mais depressa. Nessa idade eles pulam... Desconfiei logo; quando te vi pelos cantos, toda sorumbática, percebi. O bichinho está fazendo artes lá no coraçãozinho da minha Guida. Não é verdade? 

Estas palavras brincadas, e envoltas na ternura risonha do pai, retalharam a alma da moça. No meio do enlevo de seu amor, quando não vivia senão desse afeto, por ele e para ele, vinha surpreendê-la a realidade e reclamar sua existência, para votá-la ao mais atroz dos sacrifícios, que pode sofrer a mulher: para atá-la como a um poste de infâmia, ao homem a quem ela despreza. 

- Adivinhei, confessa. Tu já escolheste. 

(continua...)

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