Por José de Alencar (1875)
Era já sobretarde. A sombra que vestia êsse lado do edifício, concorria talvez para tornar ainda mais merencória a expressão da donzela. Seus olhos límpidos passavam por entre a folhagem rendilhada de uma aroeira e iam imergir-se no azul do céu, onde estampava-se o disco prateado da lua. Alí ficavam imóveis, fixos, como dois raios do astro meigo e saudoso da noite, que se estivessem embebendo em seu seio e enchendo da luz do céu.
O coração de Arnaldo confrangeu-se. Fôra êle quem perturbara a serena placidez daquela fronte angélica; fôra êle o autor daquela tristeza.
Saltou em terra, ajoelhou-se humildemente, e de mãos postas, com todo o fervor do crente quando ora à divindade, pediu perdão a D. Flor da mágoa que lhe causara. Teve ímpetos de punir-se alí mesmo diante da donzela, do atrevimento com que lhe ofendera o pudor e o altivo melindre.
Chegou a levar a mão ao punho da faca; mas lembrou-se que sua vida era precisa naquela ocasião em que novos e talvez mais sérios perigos ameaçavam a casa da Oiticica.
X – A infância
Entrando no seu camarim, depois da repreensão que dera a Arnaldo, D. Flor precipitadamente voltara-se para fechar a porta e impedir a entrada da escrava que vinha prestar-lhe os seus serviços e ajudá-la a mudar de traje.
Caminhando até o meio do aposento, a donzela parou; e recolheu-se atônita do que se passava em si. De repente o seio tímido estalou em um soluço; e dois rocais de lágrimas aljofraramlhe as faces.
Por que chorava?
Foi a interrogação que dirigiu à sua conciência, confusa e perturbada com aquele pranto súbito. A severidade que usara com Arnaldo, ela a devia ter; não se arrependia da exprobração que fizera ao seu colaço, antes parecia-lhe mostrar maior rigor.
Naquele instante, esquecendo a amizade que desde a infância tinha ao filho de sua ama, a donzela odiava-o sinceramente; e não podia perdoar ao vaqueiro o atrevimento de dar-lhe uma ordem e o insulto de tocá-la, a ela D. Flor, a quem seu próprio pai o capitão-mór Campelo respeitava como uma santa.
Assomava-lhe ainda na mente a imagem do insolente, com a fisionomia revôlta, e os olhos chamejantes; ela não o vira erguer a mão audaz, tão rápido fôra o movimento; mas sentira-lhe o contacto nos cabelos, e o leve perpassar pelos alamares que fechavam o corpete de seu roupão de montar.
Ainda a vertigem que a tomara naquele momento anuviava-lhe a vista ao recordar-se do incidente; e insensivelmente brandia o chicotinho, arrependida de não ter castigado aquela vilania.
Mas se a revolta de sua altivez a impelira a êsse ato de energia, por outro lado os instintos nobres e delicados de sua alma tinham-lhe advertido que não devia descer até corrigir com sua própria mão a grosseria de um quase fâmulo da casa.
A donzela permaneceu algum tempo imóvel no meio do aposento, completamente absorta. A pouco e pouco a figura sinistra do vaqueiro que a havia desacatado, foi-se desvanecendo, como se as lágrimas lhe delissem as tintas, e da névoa que fez-se na memória da donzela, surgiu o vulto de um menino de sete anos, vestido com um gibão de couro, que lhe servia de opa.
Êste menino era Arnaldo; e o gibão pertencia ao pai, o vaqueiro Louredo, que o deixara de usar por já estar muito velho e surrado, a ponto de andar a rir-se pelos muitos rasgões que tinha nas costas.
O menino, sôfrego por ter um vestuário de vaqueiro, enfronhara-se naquele fardão; e ficara tão cheio de si, que não se trocaria por um rei, embora dos rasgões do couro lhe saíssem as tiras de uma camisa de chita, que a mãe lhe cosera oito dias antes, e que êle já havia reduzido a trapos.
D. Flor, tornada também em sua fantasia à idade feliz da inocência, olhava com espanto para aquele pirralho, que ela via a cada instante praticar as maiores estrepolias, e cometer temeridades que a todos enchiam de susto.
Arnáo, como o chamavam os pais nesse tempo, não estava um instante quieto: se não andava já empenhado em uma travessura, com certeza buscava o pretêsto para ela. Seus folguedos, porém, eram sempre coisas impróprias de seu tamanho, e que muitos com o dôbro de sua idade não se animariam a empreender.
Um macaco trepava aos últimos ramos de uma árvore, e de lá deixava-se cair, segurando-se pela cauda. Arnaldo assentava de pular como êle de ramo em ramo, e despencava-se do alto. A mãe o metia em panos de sal, e dava-lhe a beber um cozimento de angico; no dia seguinte já êle estava ruminando outra.
Ora metia-se a parar a bolandeira tangida com fôrça, e rodava pelos ares; ora quando a mãe o mandava apanhar gravetos, carregava às costas um grosso toro de sábia, que o atirava ao chão em risco de esmagá-lo; em outra ocasião era o bode em que êle montava, e lá se ia pelos precipícios e desfiladeiros a divertir-se dos sustos da Justa.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.