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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

Viu do outro lado da esplanada três vultos que atravessavam ligeiramente; isto aumentou a sua desconfiança; os homens de vigia eram ordinariamente dois e não três. 

Seguiu-os de longe; mas quando chegou ao pátio, não viu senão um dos homens que entrava na alpendrada; os outros tinham desaparecido. 

Peri procurou-os por toda a parte e não os viu; estavam ocultos pelo pilar que se elevava na ponta do rochedo, e não lhe era possível descobri-los. 

Supondo que tivessem também entrado no alpendre, o índio agachou-se e penetrou no interior; de repente a sua mão tocou uma lamina fria que conheceu imediatamente ser a folha de um punhal. 

— És tu, Rui? perguntou uma voz sumida. 

Peri emudeceu; mas de chofre aquele nome de Rui lembrou-lhe Loredano e o seu projeto; percebeu que se tramava alguma coisa: e tomou um partido. 

— Sim! respondeu com a voz quase imperceptível. 

— Já é hora? 

— Não. 

— Todos dormem. 

Enquanto trocavam estas duas perguntas, a mão de Peri correndo pela lâmina de aço tinha conhecido que outra mão segurava o cabo do punhal. 

O índio saiu do alpendre e dirigiu-se ao quarto de Aires Gomes; a porta estava fechada, e junto dela tinham colocado um grande montão de palha. 

Tudo isto denunciava um plano prestes a realizar-se; Peri compreendia, e tinha medo de já não ser tempo para destruir a obra dos inimigos. 

Que fazia aquele homem deitado que fingia dormir, e que tinha o punhal desembainhado na mão como se estivesse pronto a ferir? Que significava aquela pergunta da hora e aquele aviso de que todos dormiam? Que queria dizer a palha encostada à porta do escudeiro? 

Não restava dúvida; havia ali homens que esperavam um sinal para matarem seus companheiros adormecidos, e deitarem fogo à casa; tudo estava perdido se o plano não fosse imediatamente destruído. 

Cumpria acordar os que dormiam, preveni-los do perigo que corriam, ou ao menos prepará-los para se defenderem e escaparem de uma morte certa e inevitável. 

O índio agarrou convulsivamente a cabeça com as duas mãos como se quisesse arrancar à força de seu espírito agitado e em desordem um pensamento salvador. Seu largo peito dilatou-se; uma idéia feliz luzira de repente na confusão de tantos pensamentos desencontrados que fermentavam no cérebro, e reanimara sua coragem e força. 

Era uma idéia original. 

Peri lembrara-se que o alpendre estava cheio de grandes talhas e vasos enormes contendo água potável, vinhos fermentados, licores selvagens, de que os aventureiros faziam sempre uma ampla provisão. 

Correu de novo ao saguão, e encontrando a primeira talha tirou a torneira; o liquido começou a derramar-se pelo chão; ia passar à segunda quando a voz, que já lhe tinha falado, soou de novo, baixa mas ameaçadora. 

— Quem vai lá? 

Peri compreendeu que a sua idéia ia ficar sem efeito, e talvez não servisse senão de apressar o que ele queria evitar. 

Não hesitou pois; e quando o aventureiro que falava erguia-se, sentiu duas tenazes vivas que caiam sobre o seu pescoço e o estrangulavam como uma golilha de ferro, antes que pudesse soltar um grito. 

O índio deitou o corpo hirto sobre o chão sem fazer o menor rumor, e consumou a sua obra; todas as talhas do alpendre esvaziaram se a pouco e pouco e inundavam o chão. 

Dentro de um segundo a frialdade acordaria todos os homens adormecidos, e os obrigaria a sair do alpendre; era o que Peri esperava. 

Livre do maior perigo, o índio rodeou a casa para ver se tudo estava em sossego; e teve então ocasião de notar que por todo o edifício tinham disposto feixes de palha para atear um incêndio. 

Peri inutilizando estes preparativos, chegou ao canto da casa que ficava defronte de sua cabana; parecia procurar alguém. Aí ouviu a respiração ofegante de um homem cosido com a parede junto do jardim de Cecília. 

O índio tirou a sua faca; a noite estava tão escura que era impossível descobrir a menor sombra, o menor vulto entre as trevas. Mas ele conheceu Rui Soeiro. 

Peri tinha o ouvido sutil e delicado, e o faro do selvagem que dispensa a vista; o som da respiração servia-lhe de alvo; escutou um momento, ergueu o braço, e a faca enterrando-se na boca da vitima cortou-lhe a garganta. 

Nem um gemido escapou da massa inerte que se estorceu um momento e quedou de encontro ao muro. 

Peri apanhou o arco que encostara à parede, e voltando-se para lançar um olhar sobre o quarto de Cecília, estremeceu. 

Acabava de ver pela soleira da porta o reflexo vivo de uma luz; e logo depois sobre a folhagem do óleo um clarão que indicava estar a janela aberta. 

(continua...)

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