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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Sim... sim... porém nós queremos seguir à risca a natureza... procurávamos pois um original, quando V. Sa. chegou.

– O último golpe acabava de ser dado tão diretamente que Salustiano corou até a raiz dos cabelos.

– Compreendo tudo, minhas senhoras!...

– Ora... pois o que compreendeu?

Salustiano pensou alguns momentos, e depois respondeu:

– Que devo também escrever um romance.

– Ah! disse Mariquinhas, então isto é contagioso?!

– Creio que sim, minha senhora.

– Tanto melhor, tornou a moça rindo-se; creia V. Sa. que faz um relevante serviço à tão atrasada literatura do país.

– Agradecido.

– Eu estou pensando já no muito que poderá fazer uma pena manejada por quem deve à natureza tanto espírito como V. Sa.

– Muito agradecido.

– Era uma necessidade que desde muito palpitava; o céu devia ao Brasil um Cooper, um Walter Scott, um Dumas.

– Mil vezes agradecido.

– Quando começa a escrever?...

– Ora... já está metade escrito.

– Já!.. e então!...

– É o mesmo de V. Exas.

– O mesmo?... não... não... seria um triste roubo feito a duas pobrezinhas.

– Mas o meu romance, que se parece muito com o de V. Exas. até o meio, difere completamente no fim.

– Como?

– No meu romance triunfa o moço rico, o ousado e vaidoso...

Celina ergueu a cabeça nobremente, e fitou os olhos em Salustiano.

– Crê então, que isso chegue a ser verossímil?... perguntou Mariquinhas.

– Não será somente verossímil, tornou Salustiano elevando a voz com incrível audácia, ha de ser também uma realidade.

– Bravo!... exclamou Mariquinhas; isto me está parecendo um desafio.

– Pois seja um desafio; veremos qual dos dois romances se realiza.

– Aceito, disse, levantando-se, a “Bela Órfã”.

O rosto de Celina estava aceso de rubor e de cólera: em pé, ela encarava Salustiano com olhos cheios de fogo.

– Minha senhora... ia murmurando o moço.

– Eu lhe disse que aceito o desafio, senhor!... exclamou Celina. Não é bem claro isto?

Reinou então silêncio por alguns instantes, até que Salustiano despediu-se com seu sorrir sarcástico nos lábios, e saiu com o desespero e a raiva no coração.

– Bem bom! bem bom! disse Mariquinhas batendo palmas com uma alegria infantil.

– Fizeste mal, d. Mariquinhas.

– Pois sim... concedo, fiz mal; porém tu, d. Celina, fizeste muito bem.

– E agora?... quem sabe o que me espera?...

– Que nos importa o futuro? o futuro é de Deus.

– Mas eu preciso que me animem; eu sou fraca e sou só.

– Vem portanto animar-te... subamos ao segundo andar.

– Para quê?...

– Vamos ler de novo a história do teu amor.

– Oh!... sim!... tu és louca como eu, d. Mariquinhas; mas o que acabas de dizer deve ser verdade.

– Vamos pois...

– Vamos.

As moças subiram a escada correndo, como duas crianças travessas; entraram no quarto de Celina... abriu-se a gaveta onde deveria estar a história do amor da “Bela Órfã”...

– Os meus papéis!... exclamou esta.

– Que há então?... perguntou Mariquinhas.

– Eu os tinha posto aqui.

– É certo..

– Oh!... furtaram-mos!...

– Meu Deus!...

– Os meus papéis!... a minha história!... exclamou dolorosamente a “Bela Órfã”.

– Como pode ser isto?...

– Onde estarão eles?...

– Quem entraria aqui?... perguntou Mariquinhas.

– Eu não sei... eu não podia ver!... o que eu sei, o que eu vejo é que estou perdida. Oh! isto foi uma desgraça!...

– Quem sabe?... disse Mariquinhas com ar pensativo; também pode ser que seja uma felicidade.

CAPÍTULO XXIX

O VELHO RODRIGUES E CÂNDIDO

O VELHO Rodrigues apareceu à porta do sótão do “Purgatório-trigueiro”, e ficou aí parado alguns instantes.

Cândido estava só, e tinha os olhos fitos na porta; mas não dizia palavra.

Era porque o moço estava olhando, porém não estava vendo.

Há alguns homens no mundo que têm freqüentemente horas inteiras passadas assim; horas em que, concentrados em um mundo interior, nada vêem, nada ouvem, nada sentem do que se está passando ao redor deles.

Serão pobres loucos ou entes privilegiados esses homens?

Há muitos que deles se riem, ou que deles têm piedade. Deixá-los rir... deixálos ter piedade.

O velho Rodrigues falou:

– Sr. Cândido!

– Quem é? perguntou o moço erguendo-se, e como despertando de um sono afadigado.

– Sou eu... um velho amigo.

– O sr. Rodrigues... ah! entre, sente-se.

– Não, preciso voltar já; é pouco o que tenho a dizer-lhe.

– Como quiser... eu lhe escuto.

(continua...)

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