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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Na solidão escondia ela ao menos suas lágrimas do pai carinhoso que a observava; porque Raquel não tinha o ânimo de outrora para ir derramar no seio paterno suas mágoas; porque há dores, há sofrimentos de que uma filha não se queixa à sua mãe sem corar primeiro até à raiz dos cabelos; e não pode acusá-los a seu pai sem um enorme sacrifício de seu pudor de virgem: dores e sofrimentos muito nobres, muito naturais, mas que a mesma natureza parece ensinar a engolir sem gemer em silêncio despedaçador...

Na solidão, porque lá não estava ao lado de Honorina, que, beijando-a com ternura de verdadeira amiga, lhe pedia conta de suas lágrimas; lhe obrigava a mentir mil vezes; chorava com ela e lhe falava no seu tormento... no moço loiro...

Na solidão enfim; porque a mulher, ainda mais do que o homem, quando sofre uma dor profunda... concentrada... incurável; quando ama, não é amada e não pode vencer o seu amor, deve chorar longe de todos... deve gemer com cuidado para que ninguém a ouça, para que os suspiros, que lhe podem escapar, não sejam sentidos... apanhados por ninguém... para que a causa de seu padecer não chegue a ser adivinhada... compreendida por ninguém... por ninguém desse mundo bárbaro, imoral e detestável, que zomba, que calunia, que não sabe adorar de joelhos o coração de uma mulher, que ama e que sofre por saber amar!...

Na solidão, portanto, Raquel ficou um mês inteiro, durante o qual só três vezes abraçou Honorina.

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Fica, pois, aqui ligeiramente debuxada a história de trinta dias de três moças:

Honorina — aura que suspirava.

Raquel — pomba que gemia.

Lucrécia — serpente que se enroscava.

XXV

Brás-mimoso

Brás-mimoso não cabia em si de contente; tais coisas lhe tinha dito a provecta viúva, que o nosso velho gamenho com sua tonta vaidade se convenceu muito seriamente de que o seu negócio estava muito bem principiado; que havia mesmo produzido em Honorina a mais agradável impressão. Fez conseqüentemente planos de casamento e, calculando sobre o dote da noiva, determinou dias de jantares, noites de saraus; e, enfim, sonhou consigo mesmo, recostado na mais cômoda poltrona a conversar com os amigos, a ralhar com a mulher, e a comer dos juros de duzentas ou trezentas apólices.

Em alguns momentos, porém, suspirava, lembrando-se de seu desalmado rival; Lucrécia lhe asseverara que o único homem a que podia perturbar o justo andamento e a esperançosa conclusão de suas pretensões era o filho de Venâncio. Ora, Manduca era justamente o homem com quem Brás-mimoso menos desejava lutar.

— Se ele fosse algum diplomata, um jovem parlamentar, como eu, ainda bem, pensava Brás-mimoso; porém, não passa de um estúpido materialão, que apela sempre para a força bruta, e é muito capaz de preferir trocar socos, a trocar notas diplomáticas.

Contudo, tão poderoso feitiço havia no belo quadro, que aos olhos do nosso velho gamenho tinha traçado Lucrécia, que ele se resolveu a trabalhar por arredar Manduca da casa de Hugo de Mendonça.

Firme nesse projeto, gastou longas noites em estudar o melhor meio de pô-lo em execução; e um dia, enfim, supondo haver achado a incógnita, levantou-se lépido e risonho, e depois de cuidadosamente ataviar-se, saiu de casa e dirigiu-se à de Venâncio, onde há muito não aparecia, receoso de perder, enfim, a paciência, dizia ele, e de praticar alguma loucura contra o miserável Manduca.

Em casa de Venâncio cogitava-se pela mesma pessoa por quem se interessava Brásmimoso. Tomásia, sentindo a inclinação de Manduca e supondo que Honorina era um belíssimo partido, animava e acendia a paixão do interessante filho, em quem, como mãe extremosa, não via senão merecimento e perfeição, não podendo por isso acreditar que a tão requestada moça ousasse resistir à lindeza do querido Manuelzinho. Daí provinham os elogios que Tomásia, sem cessar, fazia à graça e ao espírito de Honorina.

Venâncio, ente passivo, colônia de sua metrópole, pensava, conforme o seu costume, pela alma de Tomásia; e, pois, falava sempre com entusiasmo a respeito da família de Hugo de Mendonça e do amor do seu Manduca; e em paga disso ganhava o estar passando já há duas semanas em paz com sua mulher, isto é, livre dos ataques e furores de Tomásia; porque em paz com ela sempre estava Venâncio, quer quisesse, quer não.

Rosa apoiava as mesmas idéias; e posto que fizesse sempre o seu biquinho e torcesse seus eterni-mordidos lábios, quando à vista dela se gabava Honorina, contudo, como se tratava de relacioná-la e prendê-la com um homem, com quem não lhe seria possível casar-se; e além disso, era esse um meio de segurar a constância de seu primo Félix, que temia estar assim meio embalançada, empenhava também seus esforços para animar o galante menino e lhe dava os mais entendidos e experimentados conselhos para encantar a moça.

(continua...)

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