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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

“Exmo. Sr. Coronel Contreiras — Tatui — Palmeiras - Respeitosamente peço a V. Exa. promover engenheiro Gama Silveira vinte anos preterido — Lucrécio

Contreiras, logo que tomou conta do governo do Estado, mandou empastelar o jornal da oposição; e, em seguida, fez um inquérito em que o seu delegado procurava demonstrar que haviam sido os proprietários do jornal os autores do empastelamento.

Para isso, além do seu cinismo em afirmar, o tal delegado empregou a coação e a ameaça sobre os depoentes, pobres operários que eram obrigados a dizer tudo o que convinha à autoridade.

Não contente com isso, dividiu o Estado em vários distritos agrícolas, à frente dos quais pôs um inspetor e meia dúzia de auxiliares; todos gente sua, que se encarregavam de esbordoar aqueles que demonstravam de qualquer modo não concordarem com “o salvador”.

As reclamações choviam e os delegados policiais faziam inquéritos onde diziam que não havia nos casos coisa alguma de política, mas simples rixas por questões de mulheres ou de família.

Havia em Contreiras, como em todos os déspotas de sua escola que se seguiram, um terror extremo diante da lei que violavam. Não tinham coragem de fazê-lo francamente, claramente, ousadamente; mascaravam as suas violências, os seus assassinatos, com subterfúgios legais e outros, falando sempre em liberdade, em ordem, em paz e prosperidade.

Bogoloff chegando ao Estado, teve vontade de visitar o governador e pediulhe uma audiência; mesmo porque, se não o fizesse, corria perigo a sua segurança.

Já começavam a desconfiar “daquele estrangeiro”. Isto é, não do súdito russo, mas do indivíduo estranho ao Estado, pois assim chamavam os que não viviam e residiam lá.

Viu-se o Diretor da Pecuária muitas vezes seguido por tipos suspeitos, e à vista disso, declarou a sua qualidade de oficial e pediu uma audiência ao governador. Ele lha deu sem muita mora e Bogoloff pode encontrar-se com um homem muito comum, de feições e inteligência. Não lhe pode sacar nem uma idéia sobre a administração e o governo. Só lhe dizia:

— Este Estado, Doutor, tem sido muito roubado. Agora as coisas vão entrar nos seus eixos. Sou honesto e não consinto que ninguém roube à minha sombra. Quanto a bois, há por aí muitos, mas esse negócios de bois não é dos mais urgentes. A polícia não está bem instruída...

Quando o russo lhe falou da miséria da população, na lamentável impressão que isso fazia a quem vinha de fora, ele lhe disse:

— É... É... São uns madraços. Estou tratando de fundar uma colônia correcional.

Aquele homem não via que era o próprio governo que estava criando aquela situação; que era, além de outras coisas, a quantidade formidável de impostos cobrados pelos governos municipal, estadual e federal, tornando o trabalho infecundo e afastando o emprego de capitais.

Perguntou ao Dr. Bogoloff em seguida pela política central, se Bentes ainda era muito atacado, se lhe faziam muita oposição. Disse-lhe o russo que os jornais do Rio atacavam-no muito e Contreiras observou:

— Sei... Sei.... Se eu estivesse lá os fazia calar.

Tomou por aí uma expressão feroz que trouxe à lembrança do russo Tamerlão e Gengis Khan. Despedindo-se do governador, Bogoloff prometeu no dia seguinte ir assistir a uma sessão da Câmara dos Representantes.

— Venha, doutor — disse Contreiras. — O senhor vai ver que Congresso disciplinado! que ordem! que obediência! Não é aquela “praia do peixe” do Rio.

A Constituição do Estado, moldada na Federal, estabelecia a independência e a harmonia dos poderes estaduais, que eram o judiciário, o executivo e o legislativo.

Não tinha o Estado Senado e o órgão do seu poder legislativo era unicamente a Câmara dos Representantes, que funcionava em uma ala do palácio do governador.

A sala não era apropriada ao seu destino, mas era ampla e bem iluminada; e, como já fosse conhecida a qualidade de Bogoloff, deram-lhe uma espécie de camarote, ao nível do recinto, a que chamavam de tribuna.



(continua...)

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