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#Romances#Literatura Brasileira

O Cortiço

Por Aluísio Azevedo (1890)

— Vamos! vamos! Abracem-se! Acabem com isso por uma vez! bradava Jerônimo, a empurrá-las uma contra a outra. Não quero aqui caras fechadas!

As duas trocaram um aperto de mão, sem se fitarem. Piedade estava escarlate de vergonha.

— Ora muito bem! acrescentou o cavouqueiro. Agora para a coisa ser completa, hão de jantar conosco!

A portuguesa opôs-se, resmungando desculpas, que o cavouqueiro não aceitou.

— Não as deixo sair! É boa! Pois hei de deixar ir minha filha sem matar as saudades?

Piedade assentou-se a um canto, impaciente pela ocasião de entender-se com o marido sobre o negócio do colégio. Rita, volúvel como toda a mestiça, não guardava rancores, e, pois, desfez-se em obséquios com a família do amigo. As outras visitas saíram antes do jantar.

Puseram-se à mesa às quatro horas e principiaram a comer com boa disposição, carregando no virgem logo desde a sopa. Senhorinha destacava-se do grupo; na sua timidez de menina de colégio parecia, entre aquela gente, triste e assustada ao mesmo tempo. O pai acabrunhava-a com as suas solicitudes brutais e com as suas perguntas sobre os estudos. À exceção dela, todos os outros estavam, antes da sobremesa, mais ou menos chumbados pelo vinho. Jerônimo, esse estava de todo. Piedade, instigada por ele, esvaziara freqüentes vezes o seu copo e, ao fim do jantar, dera para queixar-se amargamente da vida; foi então que ela, já com azedume na voz, falou na divida do colégio e nas ameaças da diretora.

— Ora, filha! disse-lhe o cavouqueiro. Agora estás tu também pr’aí com essa mastigação! Deixa as tristezas pr’outra vez! Não nos amargures o jantar!

— Triste sorte a minha!

— Ai, ai! que temos lamúria!

— Como não me hei de queixar, se tudo me corre mal?!

— Sim! Pois se é para isso que aqui vens, melhor será não tornares cá!... resmungou Jerônimo, franzindo o sobrolho. Que diabo! com choradeiras nada se endireita! Tenho eu culpa de que sejas infeliz?... Também o sou e não me queixo de Deus!

Piedade abriu a soluçar.

— Aí temos! berrou o marido, erguendo-se e dando urna punhada forte sobre a mesa. E aturem-na! Por mais que um homem se não queira zangar, há de estourar por força! Ora bolas!

Senhorinha correu para junto do pai, procurando contê-lo.

— Sebo! berrou ele, desviando-a. Sempre a mesma coisa! Pois não estou disposto a aturar isto! Arre!

— Eu não vim cá por passeio!... prosseguiu Piedade entre lágrimas!. Vim cá para saber da conta do colégio!...

— Pague-a você, que tem lá o dinheiro que lhe deixei! Eu é que não tenho nenhum!

— Ah! então com que não pagas?!

— Não! Com um milhão de raios!

— É que és muito pior do que eu supunha!

— Sim, hein?! Pois então deixe-me cá com toda a minha ruindade e despache o beco! Despache-o, antes que eu faça alguma asneira!

— Minha pobre filha! Quem olhará por ela, Senhor dos Aflitos?!

— A pequena já não precisa de colégio! deixe-a cá comigo, que nada lhe faltará!

— Separar-me de minha filha? a única pessoa que me resta?!

— Ó mulher! você não está separada dela a semana inteira?... Pois a pequena, em vez de ficar no colégio, fica aqui, e aos domingos irá vê-la. Ora aí tem!

— Eu quero antes ficar com minha mãe!... balbuciou a menina, abraçando-se a Piedade.

— Ah! também tu, ingrata, já me fazes guerra?! Pois vão com todos os diabos! e não me tornem cá para me ferver o sangue, que já tenho de sobra com que arreliar-me!

— Vamos daqui! gritou a portuguesa, travando da filha pelo braço. Maldita a hora em que vim cá!

E as duas, mãe e filha, desapareceram; enquanto Jerônimo, passeando de um para outro lado, monologava, furioso sob a fermentação do vinho.

Rita não se metera na contenda, nem se mostrara a favor de nenhuma das partes. "O homem, se quisesse voltar para junto da mulher, que voltasse! Ela não o prenderia, porque amor não era obrigado!"

Depois de falar só por muito espaço, o cavouqueiro atirou-se a uma cadeira, despejou sombrio dois dedos de laranjinha num copo e bebeu-os de um trago.

— Arre! Assim também não!

A mulata então aproximou-se dele, por detrás; segurou-lhe a cabeça entre as mãos e beijou-o na boca, arredando com os lábios a espessura dos bigodes. Jerônimo voltou-se para a amante, tomou-a pelos quadris e assentou-a em cheio sobre as suas coxas.

— Não te rales, meu bem! disse ela, afagando-lhe os cabelos. Já passou! — Tens razão! besta fui eu em deixá-la pôr pé cá dentro de casa!

E abraçaram-se com ímpeto, como se o breve tempo roubado pelas visitas fosse uma interrupção nos seus amores.

Lá fora, junto ao portão da estalagem, Piedade, com o rosto escondido no ombro da filha, esperava que as lágrimas cedessem um pouco, para as duas seguirem o seu destino de enxotadas.

CAPÍTULO XX

(continua...)

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