Por Aluísio Azevedo (1897)
Ao fundo da alcova, Gabriel derramava sobre os dois um olhar dolorido e vago. Postura e gesto, tudo nele dizia grande desapego à vida e uma completa ausência de si próprio. Apoiavase a um móvel com o cotovelo, e com a mão correspondente amparava a cabeça em desalinho. Havia mais indiferença do que mágoa na sua graciosa boca mal cerrada. A febre punhalhe tons corderosa na palidez das faces, e a sombra transparente dos seus triguenhos cabelos banhavamlhe a fisionomia num doce eflúvio levedado de ouro.
Quem o visse naquele instante, tomáloia por um prematuro asceta, cujo espírito apenas roçasse de leve pela terra, distraído e ligeiro repouso dos seus vôos místicos.
No silêncio da alcova palpitava monotonamente o balbuciar das orações de Genoveva.
De repente, Gabriel abriu a chorar numa explosão de soluços, e afastouse para o jardim com o rosto escondido nas mãos.
Quando Alfredo voltou com o médico, Jorge havia já morrido.
E pouco depois o amante de Ambrosina vagava pelas ruas, sem consciência do tempo nem do lugar.
Como todo aquele que sente uma decepção de amor, compraziase ele em deixar levar à toa, arrastado pelos seus próprios desgostos. Enquanto errava pelas ruas, lhe patinavam no espírito, com os chapins em brasa todas as saudosas recordações da sua extinta ventura.
Duas horas. A noite enchia a natureza de mistérios. O arrabalde dormia; polícias dispersos cabeceavam encostados pelas esquinas ou ressonavam à soleira das portas fechadas. Por entre uma nuvem de pó, os varredores da rua desenhavamse confusamente, como espectros; a noite envelhecia, e as primeiras névoas da madrugada iam galgando as serras, que cercam o Rio de Janeiro num círculo de granito. Uma mulher, vestida de branco e com os cabelos soltos, passeava de um para o outro lado da calçada.
Gabriel reparou que havia entrado na cidade.
XXXII
VISITA DE ZANGÃO
Ambrosina e Laura, chegadas à Bahia, hospedaramse no hotel Figueiredo. Daí colheram informações sobre a cidade e seus costumes, e logo depois se achavam instaladas na Barra em uma casinha alugada com os móveis.
Levaram uma vida especial as duas belas fugitivas, à qual os sobressaltos e as apreensões emprestavam um capitoso encanto de aventura romanesca. Inteiramente desconhecidas, concentravam só em si toda a atividade dos seus instintos e toda a mórbida curiosidade dos seus sentidos. Laura deixavase dominar em absoluto pela companheira, não tinha vontade própria, nunca fazia uma objeção aos reclamos de Ambrosina, que em compensação não desdenhava meios de proporcionar à amiga tudo que lhe pudesse trazer alegria, propondolhe divertimentos na cidade, excursões ao campo, e oferecendolhe jóias, modas e dinheiro.
Laura, porém, começava a enfraquecer. O seu lindo corpo delgado, e outrora tão roliço, principiava a denunciar sinistros ângulos. A pele ia se tornando mais transparente, descorada e seca, os lábios menos vermelhos, as mãos úmidas. De toda ela se desprendia um ar melancólico de sofrimento e resignação, tinha agora o andar vagaroso e os movimentos demorados. Ficava horas perdidas a olhar abstratamente para o espaço, boca ansiosa, respiração convulsa, braços esquecidos.
Dirseia que toda a sua atividade nervosa se lhe havia refugiado nos olhos. Esses, sim, eram agora mais vivos e pareciam maiores na roxa moldura das pálpebras.
Ambrosina, às vezes, a surpreendia nesses êxtases.
— Que tens tu, minha vida?... perguntavalhe com meiguice; por que ficas assim, a olhar a toa, como quem deixou longe o coração?... Fala, meu amor! conta à tua amiguinha qual a mágoa que te oprime! O que te falta?
— Não era nada!... dizia a outra, entre sorrindo e suspirando. Nervoso...
Ambrosina ralhava.
— Não a queria ver assim triste!... Era preciso ter juizinho!
À mesa, que champanha! Laura torcia o nariz aos pratos e queixavase de falta de apetite. A companheira fazia então milagres de ternura, afagavalhe os cabelos! batialhe com o dedo na polpa do queixo, e começava a falarlhe com voz de criança:
— Bebê não faz a vontadinha de Ambrosina?... Ambrosina fica triste!
E Laura, já a rir, tomava nos dentes o bocado que a outra lhe levava à boca.
Assim passaram quase um mês na Bahia. O paquete, que as devia levar para Europa, era esperado dai a quatro dias. As duas viviam a sonhar com Paris.
À tarde, depois do jantar, quando não davam uma volta pelo Passeio Público, ficavam a ler, estendidas no divã.
Estas leituras entravam pela noite Vinha a criada acender o lustre, e as duas amigas permaneciam juntinhas ao lado uma da outra, como duas rolas no mesmo ninho.
Era quase sempre Ambrosina quem lia em voz alta. Laura escutava religiosamente.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.