Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

O Sr. D. Pedro I, nos dois primeiros anos do seu reinado, não foi tão exato como seu pai no cumprimento do voto de que falei. Depois daquele período, porém, observou constantemente a mesma prática e devoção.

O retrato do primeiro imperador do Brasil tem a data de 1824, e foi obra do hábil pintor Simplício Rodrigues de Sá, um dos primeiros filhos da nossa academia das belas-artes e discípulo do ilustre Debret, aquele artista de tão elevado merecimento e sempre tão amigo dos brasileiros.

O retrato de S. M. o Sr. D. Pedro II não tem o nome do autor e nem me foi possível saber quem executou essa obra, que, aliás, quer me parecer que em valor artístico não pode competir com os dois retratos anteriores, e especialmente longe está de disputar primazia ao do Sr. D. João VI, do nosso habilíssimo José Leandro.

Vou dar por concluídos os nossos passeios ao convento de S. Antônio da cidade do Rio de Janeiro. Permitir-me-eis, porém, que acrescente algumas breves informações que não quero deixar esquecidas, e depois direi enfim duas palavras em despedida.

O convento que acabamos de visitar fez-se outrora muito notável pelos religiosos mais ou menos eminentes em ciências e belas-artes que floresceram nele, e diz-se mesmo que os jesuítas o olhavam com os olhos vesgos por esse motivo.

Deixei lembrados oportunamente alguns dos capuchos de mais nomeada pertencentes a este convento, e quero agora mencionar os nomes de alguns outros.

Frei Bernardo do Quintaval foi um desses homens que ainda se conservam na memória de seus irmãos, apesar de terem morrido há bastantes anos. Era formado em medicina e químico de grande merecimento. Aborrecido no mundo, e querendo consagrar-se ao serviço de Deus, vendeu quanto possuía, deu aos pobres o dinheiro que realizou, veio para o Brasil, e entrando para o convento de S. Antônio do Rio de Janeiro, professou para o humilde estado de leigo, e encarregado logo da enfermaria na qualidade de primeiro enfermeiro, ilustrou-se pela sua caridade e pela sua perícia, sendo sempre ouvido e consultado pelos médicos, que muito o consideravam.

Além de muitos fatos que abonam o seu saber e a sua experiência em medicina, conta-se de frei Bernardo do Quintaval que achando-se um dia almoçando no refeitório da enfermaria com os convalescentes, entre os quais estava frei Francisco de Mont’Alverne, apareceu-lhe um jovem religioso, de manto e chapéu, que vinha despedir-se dele e dos outros, porque havia obtido do provincial uma licença de quinze dias para ir passar fora da cidade. Frei Bernardo encara-o, levanta-se apressado, pede-lhe que espere e corre à botica. Mas, voltando logo depois, apenas entra na sala, vê cair o jovem religioso, sucumbindo a um ataque de apoplexia fulminante.

– Cheguei tarde! – disse frei Bernardo, mostrando uma lanceta que trazia da botica.

Frei Bernardo do Quintaval morreu no dia 20 de agosto de 1822.

Era dantes costume celebrar-se no convento de S. Antônio, como em outros estabelecimentos e nos colégios de instrução secundária, uma festa literária e anual que se chamava defesa de conclusões.

Em uma dessas solenidades, que se efetuou em um dos anos da primeira metade do século passado, os frades capuchos, tendo previamente mandado exemplares de algumas teses filosóficas aos homens mais ilustrados da cidade, reuniram no seu convento o governador, o bispo, os religiosos mais instruídos das outras ordens, e algumas notabilidades literárias.

O lente de filosofia ocupou a sua cadeira, e quatro jovens religiosos estudantes tomaram os lugares dos defensores das teses; e depois de um longo e belo debate, acudiu a atacá-los um notável padre jesuíta que tomou a peito confundi-los. O lente veio em breve em auxílio dos seus alunos. Sendo, porém, muito velho e doente do peito, no fervor da luta começou a lançar sangue pela boca e teve de retirar-se.

A vitória estava, pois, do lado do jesuíta, ou pelo menos indecisa, quando outro jovem religioso, que contava apenas dezenove anos de idade e dois de colégio, levantou-se e pediu licença para sustentar a tese. Travou-se então, e de novo, a luta. Ao jesuíta argüente reuniram-se mais dois padres da mesma Ordem, e a discussão prolongou-se até ao último momento sem que o estudante perdesse um palmo de terreno.

O auditório aplaudiu com entusiasmo o talentoso e admirável mancebo. O bispo convidou o provincial a que desse por concluído o curso para aquele religioso, e mandou-lhe passar a patente de leitor de filosofia.

Infelizmente, pouco tempo depois, morreu esse esperançoso jovem, que se chamava frei Antônio de Mont’Alverne.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...8182838485...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →