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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

 - Não acertou! bradaram satisfeitos os competidores. 

 - Lá está! gritou o atirador com ar triunfante apontando para a boneca. 

 De feito na saia de cassa branca aparecia uma centelha inflamada, que lançava de si algumas chispas, como fogo que se ateia. Durante alguns momentos os olhos dos rapazes estiveram presos daquele ponto luminoso, enquanto batia-lhes o coração com receio de que, incendiada a pólvora, voasse a boneca pelos ares, ficando malograda sua esperança. 

 - Apagou-se! exclamou Berta. 

 - Quem lhe disse? retorquiu Afonso. 

 - Apagou-se, sim! acudiu Linda batendo as mãos de prazer. 

 Em verdade a fagulha, que ardia na roupa da boneca, depois de bruxulear um instante, se extinguira de todo. O tiro de Afonso batera no tope do mastro; e fora apenas um morrão da bucha que saltara na saia molhada pelo sereno. 

 Uma algazarra dos rapazes festejou a derrota de Afonso, que voltando-se para a irmã, disse-lhe à meia voz, fingindo-se agastado: 

 - Está muito contente, hein! Cuida que há de ser Miguel? Pois vá perdendo a esperança! 

 Linda respondeu-lhe com um momo gracioso, enviando um sorriso a Miguel, que estava a seu lado, entre ela e Berta. 

 Assim é que me paga, eu ter torcido por você! 

 Pois não; foi você mesmo que me encaiporou! 

 Continuou o folguedo; todos os rapazes atiraram sucessivamente e com vária sorte. Uns acertaram na boneca, mas não conseguiram incendiá-la; outros apenas se lhe aproximaram; e muitos andavam tão por longe que pareciam atirar à catacega. Estes eram apupados com estrepitosas gargalhadas e toda a sorte de motejos e gritaria. 

 Chegou por fim a vez de Miguel. 

 O caçador recebeu a clavina das mãos de um companheiro; carregou-a com a maior presteza, e levando-a ao ombro, desfechou o tiro sem hesitação. 

 Um jorro de chamas esguichou do tope do mastro. A boneca incendiada voava pelos ares, esfuriando aljôfares azuis, verdes e escarlates, que listraram a treva da noite e correram pelo espaço trêmulas e cintilantes como lágrimas de estrelas. 

 - Bravo! gritaram em coro os rapazes. 

 - Viva o Miguel! bradava Afonso abraçando o amigo. 

 As moças batiam palmas, chilrando de folia e contentamento; sobretudo Berta, que parecia uma criança, a dar piruetas no terreiro, estalando castanholas nos dedos e dançando o fado com Afonso. 

 Linda ficou séria; mas sua alma coada em um olhar inefável embebeu-se no semblante de Miguel. 

 

XVII 

Cravo branco 

 

Ainda não se tinham desvanecido as emoções do primeiro páreo, que outra sorte mais engraçada punha em alvoroto a rapaziada. 

 A bola que servia de tope ao mastro, e sobre a qual estava pregada a boneca, era oca, e formava uma espécie de cabaz cheio de flores, frutos, confeitos e outras galanterias para quem fosse capaz de alcança-las trepando pela haste do pinheiro. 

 Não era pequena façanha essa; pois além da altura, o pau fino e roliço não dava jeito a que os rapazes se escorassem bem sobre os joelhos para com o impulso dos braços se irem içando à guisa dos marujos. 

 Este folguedo, reminiscência de antigos jogos de nossos avós, e ainda em voga em outros países com o nome de mastro de cocanha, divertia muito os rapazes, pelo seu chiste e novidade. 

 Se sucedia algum, apesar de seus esforços, escorregar de repente pelo pau abaixo quando estava já bem próximo de atingir a meta; ou se outro mais lorpa não conseguia suspender-se do chão, e ficava a patinar ao pé do mastro, tentando debalde sungar-se; eram chascos e risadas estrepitosas, que festejavam o malogro da porfia. 

 Mas nem por isso desanimavam os rapazes; e repousadas as forças tornavam à empresa, estimulados pelo desejo de esquecer a anterior derrota, e conquistarem uma flor, ou qualquer outra prenda que ofertassem à namorada. 

 Aproximando-se do mastro e rodeando-o, tinham os moços deixado sós, no canto do terreiro que antes ocupavam, Linda e Miguel. 

(continua...)

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