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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

- Eu acho que é! disse a velha batendo com a cabeça. 

Na ocasião de se despedirem disse Guida ao advogado, em cujo semblante não se apagara a tinta de melancolia que derramara a cena anterior:  

- Não se aflija. O romance que eu lhe contei, acaba alegre. 

E para confirmar o dito, o seu lindo semblante banhou-se em um riso feiticeiro. 

 

XXVII 

 

Logo depois que Ricardo saiu, mandou Guida prepara o carro para voltar à sua casa. 

- Então está decidido? perguntou a velha ao ouvido da menina. 

- Ainda não, avozinha. Ficou para outro dia.

- Ora! fez a velha com um gesto displicente. 

No carro Mrs. Trowshy, que também era curiosa, indagou nestes termos do êxito da conferência a que assistira de parte. 

- Que disse o advogado? Ganha o processo? 

- Está perdido, respondeu Guida a rir. 

- Não é possível. 

- Completamente.

- Oh! que pena! 

Chegando a Botafogo, às três e meia, esperou Guida na saleta que seu pai voltasse do escritório, para receber o beijo que lhe costumava dar na face, em retribuição das festas e carinhos com que era acolhido. 

- Que milagre; está-me nascendo uma rosa entre meus jasmins! Exclamou o Soares reparando no vislumbre de púrpura que roseava a face da moça. 

- Há de ser do calor; cheguei do Andaraí. 

- Ah! e como vai a avozinha?

- Na mesma. 

Subiu o Soares ao sobrado brincando com a filha, que ria-se das pilhérias do pai, e tornava-lhe os folguedos e as meiguices com o mesmo contentamento. 

No topo da escada separaram-se. 

Foi ao entrar no seu toucador, que o esto d’alma rompeu, como a onda por muito tempo comprimida. A moça levou as  mãos ao seio que arfava a estalar na ânsia, e caiu sobre o leito, escondendo o rosto nas fronhas de cambraia, comprimindo nas almofadas os quebros soluços. 

No seu desespero, espedaçou o vestido que a estringia como uma forma de bronze, e arremessou para longe de si os trapos da seda. Sobre as espáduas nuas desdobraram-se as cascatas dos opulentos cabelos negros, com que ela envolveu o colo e os seios, conchegando-se com um gesto pudico. 

Afinal saltaram-lhe as lágrimas ardentes dos olhos, que logo debulharam-se em pranto abundante. Foi serenando a violenta comoção, que subvertera os seios dessa alma; e Guida ergueu-se a custo, abatida pelo abalo que sofrera, mas surpresa e atônita da crise que de repente a acometera. 

Apoiando sobre a almofada a curva do braço mimoso, reclinou a face na mão, e ficou pensativa:

- Será isso o amor? perguntou a si mesma. 

E entrando de novo em si, penetrando nos refolhos d’alma, sentindo vibrarem novas cordas no seu coração, e derramar-se no íntimo uma luz que nunca até aquele dia resplandecera em seus sonhos de menina e moça, Guida compreendeu que era realmente amor, essa agitação indefinível que perturbara sua vida serena e tranqüila. 

A alegria inefável, o júbilo que teve, não os podem conceber aqueles que nunca duvidaram de si, nem jamais em horas de desânimo se tiveram por deserdados do coração. Parecia à moça que outra vida, não essa de flor ou de passarinho que vivera, mas a da poesia e da paixão, a vida da mulher, acabava de surgir para ela naquele instante. 

Estas lágrimas aljofradas, que seus dedos mimosos estalavam nas faces, eram os orvalhos de uma aurora. Raiasse ela embora entre os abalos de uma tormenta, era bem-vinda; era a luz criadora, o raio celeste, que afinal luzia em sua alma. 

O espírito de Guida não se demorou na idéia da impossibilidade de seu amor. Que valia isso na história de sua existência, senão um pequeno acidente material? O grande acontecimento era o despertar de seu coração virgem e indiferente, era a revolução que se acabava de consumar em seu organismo, selando enfim a infância. 

A magia das novas e deliciosas sensações que iam acordando em seu ser, o infindo prazer de se lhe povoarem de flores, de magnificências, de harmonias e perfumes, o ermo ingrato e sáfaro que poucos momentos antes assolava sua alma, a possuíam tanto e tão intimamente, que não bastavam as forças de sua natureza para essa ventura suprema de sentir-se outra e saciar-se dessa nova existência, ainda não vivida. Eram horas do jantar. 

(continua...)

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