Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Sim, de um romance, que d. Celina e eu estamos compondo.

– Parabéns, minhas senhoras; mas eu não sei... V. Exas. querem porventura um terceiro colaborador?...

– Qual?...

– Eu. V. Exa. tinha falado em mim.

– Deus nos livre! perderíamos a glória de autoras.

– Por quê?

– Os senhores homens custam muito a julgar-nos capazes de escrever; e portanto era V. Sa. quem ganharia todas as honras da obra.

– Mas esse romance..

– É uma história de todos os dias e de todos os salões.

– Já está completa?

– A invenção completamos hoje; mas a execução nos está dando muito que fazer.

– O que falta?

– Quase tudo; atrapalha-nos grandemente uma das principais personagens.

– Por quê?

– Pela dificuldade de descrevê-la; mas V. Sa. chegou muito a tempo.

– E então?

– Então, é que enquanto nós conversamos, d. Celina vai tomando nota.

– Nesse caso eu...

– V. Sa. ou outro qualquer... V. Sa. é como quase todos...

– Obrigado, minha senhora.

– Cortou-me a palavra; não tem que agradecer-me, pois não sabe o que eu ia dizer.

– Adivinhei.

– Dou-lhe parabéns: veja se adivinha também o nosso romance.

– Não chego a tanto, minha senhora.

– Quer que lhe tracemos o esqueleto da nossa obra?...

– Terei muito prazer em ouvir a V. Exa.

– Não poderá fazer uma justa idéia do que será, pela falta dos episódios e dos diálogos.

– Oh! mas eu compreendo o que poderá fazer uma pena manejada por quem deve à natureza tanto espírito como V. Exa.

– Agradecida.

– Creia V. Exa. que faz um relevante serviço à tão atrasada literatura do país.

– Muito agradecida, respondeu Mariquinhas rindo-se, e sem dar mostras de doer-se da ironia com que Salustiano tentava feri-la.

– Era uma necessidade que desde muito palpitava, tornou Salustiano; o céu devia ao Brasil uma Stael, uma George Sand.

– Mil vezes agradecida; mas então V. Sa. não quer ouvir o nosso romance?

– Estou pronto, minha senhora.

– Trata-se de amor.

– Eu o previa.

– É uma jovem senhora de cabelos castanhos quase pretos, olhos de safira, lábios de coral, rosto pálido, enfim, uma jovem senhora bela e muito parecida com d. Celina.

– D. Mariquinhas, basta!... isso é quase demais! disse a “Bela Órfã”.

– Quem fez a pintura da moça fui eu, e portanto posso falar. A respeito do protagonista falará então você.

– Continue, minha senhora.

– Pois bem: essa moça, a quem eu ainda não dei nome, ama um jovem modesto e bonito, e é por ele apaixonadamente amada; mas o jovem é pobre e acredita que sua pobreza é um muro de bronze erguido entre ele e a bela de seus pensamentos.

Salustiano empalideceu sem querer, ouvindo as últimas palavras de Mariquinhas. Começava a compreender o que queria dizer aquele romance.

– Acha-se incomodado?... perguntou Mariquinhas encarando Salustiano.

– Oh! não! pelo contrário,..

– Cheguei a pensá-lo, sr. Salustiano, porque V. Sa. mudou de cor.

O mancebo serenou, e respondeu sorrindo:

– Ah! foi efeito da interessante narração de V. Exa. Sensibilizei-me... realmente o seu romance é muito sentimental... toca no coração.

– Sim.. sim, tornou a moça; eu creio bem que ele tocará o coração de V. Sa.

– Mas, concluiu-se?...

– Certamente que não; ficaria sem sentido, sem pés nem cabeça.

– Era mesmo assim excelente... estava na moda; porém já que o romance não termina aí, quererá V. Exa. ter a bondade de contar-me o resto?

– Pois não! com sumo prazer; temos, como eu dizia, uma moça bela e um jovem pobre que se amam muito... romanescamente; até aí não há senão um idílio; imaginamos pois, imaginamos não, foi d. Celina quem imaginou uma espécie de tirano de comédia, um outro namorado da heroína, um mancebo rico, honrado, e vaidoso de sua fortuna, que se vem erguer como uma barreira terrível entre os dois amantes.

Celina apertava a mão de Mariquinhas de instante a instante; mas não se atrevia a dizer palavra.

– E depois?... perguntou Salustiano.

– Depois as cenas se sucedem... deverão haver lutas domésticas, esperanças que morrem e revivem... jogo de afetos... e finalmente..

– Finalmente...

– Boa pergunta! por fim de contas triunfa o amor inocente e puro... triunfa a inspiração de Deus... o moço pobre alcança a mão da moça bela.

– E o outro?

– O outro!... exclamou Mariquinhas dando uma risada; o outro deve muito provavelmente ficar com cara de tolo.

Salustiano mordeu os beiços. Mariquinhas prosseguiu:

– Mas veja... estávamos em uma verdadeira dificuldade!

– Qual?...

– Não sabíamos como descrever o tal sujeito rico, ousado e vaidoso...

– Ora! que modéstia a de V. Exa!... com tanta imagina, espírito tão atilado...

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...8182838485...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →