Por Lima Barreto (1911)
— Devem ser, pois todos quando falam no nome de um falam no do outro.
— Sou grande admirador dele, grande mesmo; e só.
— É a mesma coisa; e, pelo tempo, já devem ser amigos. Ia dizendo que queria que o senhor se interessasse por mim e me fizesse promover a engenheiro de primeira classe. Vim ao Rio propositadamente para isso... Há vinte anos que me passam a perna, estou envelhecido, preciso educar as filhas e os filhos e o aumento que me traz a promoção seria muito útil. Se o senhor se interessasse, estou certo que a promoção se faria e ficar-lhe-ia muito grato.
— Há vaga?
— Há.
— Não garanto; mas vou falar aos amigos e farei o possível.
— Posso ir descansado? — Pode.
O engenheiro tomou o chapéu de chuva e o de cabeça que estavam encostados a um canto, apertou a mão de Lucrécio e saiu para a rua com a cabeça baixa.
Lucrécio, que tinha ficado à janela, lembrou-se qualquer coisa e chamou o engenheiro:
— Doutor! Doutor!
Voltou-se logo o velho funcionário e perguntou:
— Que deseja, senhor Lucrécio?
— O senhor não me deu o nome todo e o lugar que quer. — Ah! É verdade!
Tirou um cartão da carteira e escreveu rapidamente a lápis o que queria; e seguiu o seu caminho marchando a pequenos passos, sempre de cabeça baixa.
Lucrécio informou à mulher do que o engenheiro desejava. Teve ela uma grande alegria com a importância que o marido ia ganhando, mas , ao mesmo tempo, lembrou-se:
— Você arranja tudo para os outros e não arranja nada para você.
— Deixe estar, mulher, que a minha vez há de chegar... Quem não tem habilitações tem que esperar.
Vestiu-se Lucrécio e desceu com pressa à cidade, para passar um telegrama empenhando-se com Contreiras pelo engenheiro. Interessava-se deveras por aquele homem simples, formado, preterido, que fora ao seu encontro pedir justiça. Desceu a rua do Ouvidor com pressa; mas logo ao chegar à rua Primeiro de Março, teve que cumprimentar a Mme. Forfaible.
A mulher do general não se cansava de andar na cidade e procurava variar a hora dos seus passeios. De fato, as ruas centrais pela manhã têm um aspecto de trabalho e atividade que as veste de modo diferente das outras horas do dia.
Não há conversas das esquinas; as carroças com cargas grosseiras passam por elas e pelas lojas há uma azáfama de lavagem e arrumação.
Na rua Primeiro de Março, porém, mais que nas outras horas, as libras brilhavam nas vitrinas e os bilhetes de bancos podem ser estalados entre os dedos pobres.
Mme. Forfaible chamou Lucrécio e perguntou muito naturalmente:
— Que é que se diz do meu marido?
— Não sei... Não vai ser senador?
— Não queria... Queria que ele fosse ministro! Não dizem nada por aí?
— Que eu saiba não. Mas, a senhora sabe que essas coisas, nós, os pequeninos...
— Diga-me uma coisa, Lucrécio: isso que se diz aí da mulher de Lussigny é verdade?
— Que é, minha senhora?
— Que ela pode muito em Bentes.
— Ah! É uma de Paris?
— É essa mesma.
— Dizem que sim, D. Anita. Dizem que ela é quem faz tudo, que o general só faz o que ela quer. Ela já está aí.
— Eu sei. Vou falar com ela. Meu marido há de ser ministro.
Despediram-se e Lucrécio seguiu em direitura à Central dos Telégrafos. Se bem que fosse amigo de Macieira, não estava incompatível com Contreiras, a quem mesmo dissera que não trabalhava em seu favor por ser camarada leal do adversário dele. Não havia nenhum obstáculo em pedir pelo engenheiro que há muitos anos não passava do mesmo lugar, portanto, em tal sentido, telegrafou:
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.