Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

Todo o seu azedume contra o sobrinho desaparecera, desde que o bom homem se convenceu de que não seria jamais incomodado por ele. Quando lhe chegou aos ouvidos a notícia do casamento, dissera:

- Ora, sim, senhor, até que o demônio do rapaz fez uma coisa com jeito! Perdôo-lhe tudo e hei de visitá-lo sempre que for à corte.

E, como já então as estradas-de-ferro facilitaram essas viagens, Hipólito consentia em levar a mulher a visitar o sobrinho.

Outro, que também brigara com Teobaldo e que agora o freqüentava, era o Sampaio, o seu ex-correspondente. Esquecera-se da antiga rixa com o vadio estudante e decidira-se a reatar a consideração que dantes lhe dedicara.

Teobaldo encarava tudo isso com verdadeiro orgulho, sem que aliás ninguém de tal desconfiasse. Sentia-se vitorioso, não pelo dinheiro, que esse muito pouco lhe podia lisonjear o amor-próprio, mas pelo bom resultado dos planos que ele concebera para chegar a seus fins.

Consistia o seu sistema no seguinte: desde que a inesperada morte do comendador lhe fez ver quão magra era a fortuna de Branca, o seu primeiro cuidado foi esconder de todos a verdade e manter a ilusão em que se achavam a respeito dos bens do morto; o que não podia ser muito difícil nas circunstâncias especiais em que falecera o velho. Então, para melhor cegar ao público, Teobaldo tomou da metade do que lhe trouxe a mulher e dedicou-a exclusivamente ao luxo, reservando a outra metade para o comércio.

- As aparências são tudo! considerava ele, ainda dominado pelas teorias paternas. Julguem-me rico e hão de ver se em breve o não serei de fato!

E, durante todo o seu primeiro ano de casado, fez prodígios de especulação comercial só com a parte do dinheiro que escapara à ostentação e mais a pequena prática adquirida ao lado do comendador.

Apenas Branca e o Coruja sabiam destes particulares, porque até aos próprios sócios sobreviventes ao velho Aguiar conseguiu o mágico iludir, fazendo-lhes supor que, além do capital com que jogava na praça, dispunha ele ainda, como fundo de reserva, de um dote imaginário que pertencia à mulher.

O caso é que o pouco parecia muito e, como no comércio o crédito é dinheiro, não eram de todo infundadas as esperanças que ele depositava no seu sistema de vida.

II

Teobaldo, ao instalar-se mais a esposa em Botafogo, convidou logo o Coruja a ir morar com eles.

- Ora!... opôs vacilante o amigo.

- Ora, que?

- Receio incomodá-los; vocês tem lá os seus hábitos de grandeza... estão acostumados a certo modo de vida, a certo luxo, entre o qual o meu tipo esquisito havia de ser uma nota dissonante...

- Não admito que te separes de mim! foi a única resposta de Teobaldo.

Mas, como o outro ainda recalcitrasse, ele acrescentou:

- Também era só o que faltava: era que tu me abandonasses pelo simples fato de me haver eu casado. Tinha graça! Enquanto me vi atrapalhado e sem meios de viver, éramos companheiros de casa e mesa; agora queres desertar. Não deixo!

- Mas...

- Não aceito razões. Hás de ir morar comigo! Coruja cedeu um tanto contrariado, porqueprevia não se ajeitar àqueles requintes de luxo. O que para Teobaldo representava o encanto e a delícia de uma bela existência, para ele seria nada menos do que um martírio de todos os instantes.

Cedeu, mas com a condição de que iria ocupar um sótão que havia nos fundos da casa.

- O sótão?! exclamou Teobaldo. Ora essa! Pois eu consentiria lá que fosses para o piorlugar da casa, havendo aí outras acomodações tão boas e que de nada me servem? - Não sei; a ter de ir, só irei para o sótão, e desde já te previno de que não me separo dos meus cacaréus.

- Pois faze o que entenderes, contanto que fiques em minha companhia.

Não era sem razão que o Coruja opunha aquela resistência ao convite do seu querido Teobaldo. Desejava estar junto deste, oh! se desejava! Desejava vê-lo e falar-lhe todos os dias, porque o idolatrava, porque no seu espírito inalterável e escravo dos hábitos Teobaldo se constituíra em ídolo; Teobaldo fora a sua primeira afeição, o seu primeiro amigo, o seu primeiro protetor; André habituara-se a vê-lo crescer no seu reconhecimento e dentro da sua estima, como o único e legítimo senhor; mas também não queria abrir, sem mais nem menos, com o programa de vida que ele próprio traçara, jurando a si mesmo cumpri-lo rigorosamente. porque assim entendia o cumprimento do dever.

Havia coisa de dois anos resolvera o Coruja ir pondo de parte as economias que pudesse, para ver se lograva realizar afinal o seu casamento, cuja transferencia de ano para ano já o apoquentava deveras.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...8182838485...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →