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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Não! Não! Faça favor! gritou Alfredo, segurando­lhe o braço. Nós também temos pressa! O patrão espera­me esta noite, e não posso faltar; é um caso grave de moléstia da filha... Por hoje estou farto de mistificações! Arre! Desde as duas da tarde que ando numa dobadoura! A Genoveva sonhou que a filha partia hoje, e quis vir cá; chegamos às três e meia, e encontramos a casa totalmente fechada. Daí fomos imediatamente à de seu padrasto, e ninguém lá nos pôde esclarecer patavina! Já tínhamos perdido as esperanças, quando, ao recolher­nos de volta, encontramos perto do matadouro o cocheiro Jorge, que se compadeceu do estado de ansiedade desta pobre mãe, e disse­lhe: "À senhora devo falar com franqueza! Se quiser encontrar sua filha, tome um bote e vá a bordo do paquete francês Mensageur, que parte hoje para a Europa; D. Ambrosina segue na companhia do Dr. Gabriel. Eles aqui não podiam continuar a viver juntos". Nós como o senhor pode calcular, não esperamos por mais nada e seguimos para o cais Pharoux. Gastamos um bom tempo na viagem, não apareceu um carro e tivemos de tomar um bonde da linha Vila Isabel, que é a pior das linhas de bondes! Quando chegamos à praia, passava das cinco; tomamos um escaler e dissemos ao catraeiro que nos levasse a bordo do tal paquete. O homem obedeceu, mas em viagem declarou­nos talvez não nos deixassem entrar, porque era natural que já tivessem levantado ferro. Foi justamente o que sucedeu! não chegamos a tempo! O mar estava contrário, o escaler jogava mais do que andava... E ao tiro das seis, eu e D. Genoveva, vimos o Mensageur largar para fora da barra. Ela chorava que nem uma criança e, como não havia jantado, principiou a sentir ânsias e vágados. Contudo exigiu de mim que a acompanhasse imediatamente até cá. Não contávamos encontrar ninguém; ao senhor, pelo menos, já o fazíamos em caminho para o estrangeiro.

Gabriel, porém, cortou­lhe a palavra. A notícia da saída do paquete acabava de esmagar­lhe a última esperança.

— Mas, com todos os diabos! gritou ele, segurando a cabeça com ambas as mãos. Parece que há um gênio diabólico a tramar contra todos os meus atos!

Alfredo e Genoveva retraíram­se assustados com os gritos do rapaz.

Este continuava a praguejar, passeando muito agitado em todo o comprimento da sala.

— Eu pensei que o senhor estivesse a par de tudo, disse timidamente a mãe de Ambrosina.

— Não estou a par de cousa alguma, minha senhora! Olhe! leia essa carta de sua filha, ela talvez elucide a situação. Pode também ler a outra dirigida a mim, e afinal esta! acrescentou ele, ajuntando do chão a carta de Laura; esta foi a que pôs aquela mísera criatura no estado em que se acha!

Alfredo e Genoveva armaram os competentes óculos, e dispuseram a proceder à leitura das cartas de Ambrosina.

Jorge soltou um ronco mais forte e deu um estremeção com todo o corpo.

Só então foi que Genoveva reparou para a vigorosa figura do cocheiro estatelada sobre a cama.

— Valha­me Deus! Que têm este homem?!... exclamou ela, espavorida.

— Sua filha poderia responder­lhe muito melhor do que eu... disse Gabriel, possuindo­se agora de tristeza.

— Minha filha?! Mas o que fez ela a este homem?!

— Fez simplesmente todo o mal que lhe podia fazer, roubou­lhe a sua única esperança, a sua única consolação! Esse homem, que a senhora aí vê, era um homem feliz, um honesto cocheiro; vivia do seu trabalho, amassava o seu pão com o suor de todos os dias, não desconfiava de ninguém, porque a ninguém prejudicava, tinha a consciência limpa e o coração alegre. Mas um dia lembrou­se de proteger uma desgraçada que encontrou na rua, perseguida por um doido que a queria matar. A fadiga, o terror e a embriaguez haviam­na prostrado; ele não hesitou, carregou com ela para casa, deu­lhe um talher à mesa e um lugar na cama de sua filha.

Genoveva sentiu vontade de chorar. Alfredo havia já compreendido a situação, e saíra imediatamente em busca de médico.

— Pois bem! continuou Gabriel, sempre possuído de urna grande mágoa; a protegida do cocheiro, logo que se sentiu melhor, pagou todos os desvelos recebidos, seduzindo e arrastando consigo a filha do seu benfeitor..

— O que me faltará saber?! exclamou Genoveva em sobressalto.

Gabriel continuou:

— A vítima de Ambrosina deixou ao pai essa carta, que a senhora tem às mãos... O desgraçado caiu fulminado ao lê­la, e creio que nunca mais se levantará... Sua filha o matou!

— Valha­me Deus! Valha­me Deus! repetia a desventurada mãe, achegando­se cheia de comoção para o corpo de Jorge.

E enquanto lhe desafrontava ela a garganta e o estômago, Gabriel monologava a um canto, com uma voz arrastada e confusa, como se estivesse delirando.

Não havia aquilo de ficar ali! profetizava ele; outras vítimas seriam arrastadas à ignomínia e à morte por aquela malvada! E ela, triunfante e cínica, iria por diante, envenenando com seus lábios todas as bocas que a beijassem, secando no seu peito, insaciável de luxúria, a púbere flor de todos os vinte anos que encontrasse no caminho! Arcanjo maldito, suas asas só para baixo serviriam no vôo, e um dia afinal, quando lhe caísse a máscara formosa, o mesmo inferno haveria de repudiá­la com asco!

Jorge permanecia imóvel. Tinha os olhos muito abertos, fitos e raiados de sangue, a boca torcida, mostrando parte da dentadura, que se destacava do negrume das barbas e da roxidão da cara com um sorriso abominável.

Genoveva ajoelhara­se ao lado da cama, e dizia entredentes a oração dos moribundos. ii dentes a oração dos moribundos.

(continua...)

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