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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

A escolhida do Senhor que se acha retratada, se fielmente ou não, ignoro, é Santa Isméria. Retrato fiei de outro qualquer copiado, ou simples quadro de imaginação, a obra é de frei Solano, a cuja paleta deve tanto o convento de S. Antônio.

Os outros retratos são o do rei o Sr. D. João VI e dos dois imperadores do Brasil, o filho e o neto do mesmo rei.

O retrato do Sr. D. João VI é obra do célebre José Leandro, e tanto basta para o seu completo elogio.

Já vos disse o essencial do que sei a respeito desse nosso muito notável artista e, portanto, não me demoro em discorrer de novo sobre ele.

Em outro tempo, e por um antigo voto dos príncipes da casa de Bragança, costumavam os soberanos portugueses daquela casa assistir em todos os anos à festividade do patriarca S. Francisco e jantar no convento com os religiosos, concorrendo também com uma esmola para a solenidade.

Diz-se que esse voto se fizera no empenho de vencer a triste fatalidade que persegue a casa de Bragança, fatalidade pela qual se vêem morrer quase todos os primogênitos varões herdeiros da coroa.

O Sr. D. João VI, desde a sua chegada ao Rio de Janeiro até ao seu regresso para Lisboa, cumpriu pontualmente esse voto dos seus maiores. No dia 4 de outubro de todos os anos, ia com a família real assistir à festa do patriarca, para a qual dava uma esmola de seiscentos mil-réis. Jantava depois com os religiosos no refeitório, e o pregador do dia era quem o servia à mesa.

Mas, além do cumprimento desse voto, o Sr. D. João VI mostrava ter em grande estima os frades capuchos, e, ou fosse efeito de especial devoção que tivesse com S. Francisco, ou de simpatia pelo convento a que pertenciam os grandes pregadores da época, certo é que não poupava manifestações de interesse, o que muito aproveitava aos capuchos, porque, conforme a regra, todos os cortesãos do príncipe regente e depois rei, ostentavam um verdadeiro entusiasmo pelo santo patriarca, por S. Antônio. Pelo convento, pelos frades, e creio que mesmo até pelo monte.

Sobre este assunto escreve Vieira Fazenda nas Antigualhas e memórias do Rio de Janeiro, tomo 95, vol. 149:

“Esta romaria régia ao convento situado outrora a cavaleiro da lagoa de S. Antônio era devida, ao que dizem, a um voto feito por D. João IV, quando simplesmente duque de Bragança.

“Caçava este em Vila Viçosa. Apareceu-lhe um mendigo a pedir-lhe esmola. O duque, que apesar de sangue real, tinha, como todos nós, os seus azeites, deu um pontapé no pobre pedinte. Este toma ares de nigromante e roga a seguinte praga: ‘Os primogênitos de sua casa terão vida breve e morrerão antes de atingir a juventude.’ Aclamado em 1640 rei de Portugal, viu-lhe logo após morrer seu primogênito, o esperançoso D. Teodósio. Ficou com a pulga na orelha e fez promessa de alistar-se com os seus entre os irmãos de S. Francisco, bem como de assistir anualmente à festa do dia quatro de outubro. Seus descendentes continuaram tão piedosa prática.

“Ao chegar ao Brasil, em 1808, o filho de D. Maria I não se esqueceu de cumprir também o voto. Excessivamente amigo de frades e muito carola, D. João tinha razões para logo fazer comércio de amizade com os capuchos do Rio de Janeiro.

“Nunca pensou em ser herdeiro da coroa. Devia esse fato à morte do primogênito D. José, o príncipe querido do marquês de Pombal e falecido na flor dos anos. Lembrava-se sempre o futuro D. João VI que lhe podia cair o raio em casa e, por isso, nunca faltou à festividade da qual me ocupo.

“De S. Cristóvão vinha em carro de gala, seguido por esquadrão de cavalaria e acompanhado pela sua corte, composta de fidalgos ou cabeçudos, como lhes chamava o zé-povinho.

“No largo era saudado pelos vivas do povo embasbacado por tanto luxo. Subia vagarosamente a ladeira. Parava para ouvir o murmúrio das águas da Carioca que pelo aqueduto iam cair no reservatório em forma de torre ainda existente, e daí seguiam, para o antigo chafariz construído por Aires de Saldanha e Albuquerque. Recebido ao som dos sinos pela comunidade, debaixo do pálio, assistia à festa e ao Te Deum. Passava todo o dia no convento. Lá jantava.

“Para dar provas de humildade, sentava-se a uma das pequenas mesas do refeitório. Servia-se do modesto cardápio dos frades e utilizava-se dos seus pobres garfos, facas e colheres.

“Da chácara vinham, contudo, em baixelas de prata, as mais supimpas iguarias, para não dizer menu.

“Pois bem. Dizem cronistas que D. João mandava distribuir pelos pobres a saborosa pitança.

“Nesse dia, é excusado dizer, os pobres passavam à tripa forra, e bendiziam o príncipe, que, por amor a S. Francisco, se privava dos prediletos frangos assados.”

(continua...)

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