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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

 O Afonso com suas estrepolias aumentava a doce confusão de que se aproveitava Berta para estabelecer o contato das duas almas, que ela queria unir. 

 Assim chegaram à casa, onde já se aprestava o suntuoso banquete. 

 

XVI  

São João 

 

No terreiro das Palmas arde a grande fogueira. 

 É noite de São João. 

 Noite das sortes consoladoras, dos folguedos ao relento, dos brincados misteriosos. 

 Noite das ceias opíparas, dos roletes de cana, dos milhos assados e tantos outros regalos. 

 Noite, enfim, dos mastros enramados, dos fogos de artifício, dos logros e estrepolias. 

 Outrora, na infância deste século, já caquético, tu eras festa de amor e da gulodice, o enlevo dos namorados, dos comilões e dos meninos, que arremedavam uns e outros. 

 As alas da labareda voluteando pelos ares como um nastro de fitas vermelhas que farfalham ao vento na riçada cabeça de linda caipira, derramam pelo terreiro o prazer e o contentamento. 

 Não há para alegrar a gente, como o fogo. Nos estalidos da labareda, nas faíscas chispando pelos ares, nas vivas ondulações da chama a crepitar, há como um riso expansivo que se comunica à nossa alma e influi nela uma trepidação brilhante. 

 A luz é a vida; mas a chama é o júbilo, a cintilação do espírito. 

 Formosa perspectiva tem neste momento a fachada da casa das Palmas, assim iluminada pela fogueira. 

 Uma linha de jeribás corre-lhe em frente, moldurando com as verdes arcadas a volta das janelas, o que dá ao edifício graça e chiste especial; pois enfeita a simples arquitetura com os florões e recortes das palmeiras. 

 A meio terreiro, de um e outro lado da fogueira, se elevam dois mastros, pintados com listrar de escarlate e branco, traçadas em espiral. 

 No tope do outro mastro uma grande bola, sobre a qual ergue-se vistosa boneca de pano, naturalmente cheia de pólvora. 

 A festa da sala é cidadã. Damas e cavalheiros tiram sortes, cerimoniosamente sentados em volta de uma mesa; ou dançam quadrilhas e valsas figuradas; enquanto pelos cantos os velhos fazendeiros falam a respeito das carpas, da nova flor do café, e das geadas, seu constante pesadelo. 

 No terreiro folgam os rapazes que acham mais graça na função campestre, e em vez de consultar o livro do fado, confiam nos oráculos da fogueira, saltando-a de corrida, e passando nela o ovo, que há de ficar ao relento à hora fatídica da meia-noite. 

 Entre estes lá estão Afonso e Miguel, preparando-se com outros companheiros a mostrar quem tem mais certeira mão, para incendiar com um tiro a garrida boneca suspensa ao tope do mastro. 

 Muitas moças também fugiram da sala para acompanharem os folguedos dos rapazes, nos quais porventura acham mais encanto do que nas danças tão monótonas, quando não têm o sainete do amor. 

 A primeira foi Berta, e Linda a acompanhou pressurosa. Apesar da insistência com que D. Ermelinda procurava entretê-la na sua roda, a menina a pretexto de estar com a amiga, não saía do terreiro; e se alguma vez entrava na sala era para eclipsar-se logo. 

 - Quem há de ser o primeiro? perguntou Afonso armado com a sua clavina. 

 - Eu! responderam uníssonas as vozes dos companheiros. 

 Só uma não se ouvira; era a de Miguel; mas não fora esquecido seu nome. Linda o pronunciara timidamente entre um sorriso e um rubor; e Berta o repetira em voz alta: 

 - Miguel! 

 - Eu serei o último! disse o moço com modéstia, que porventura disfarçava um desejo de primar. 

 Como último podia algum dos companheiros priva-lo da vez, e impedi-lo de mostrar a sua destreza; mas também se nenhum lograsse tocar o alvo, maior triunfo alcançaria, conseguindo o que fora impossível aos outros. 

 Não era lanço tão fácil como parecia, embora para destros atiradores. Se a boneca apresentava boa margem à pontaria, só em um ponto, no peito cheio de pólvora, podia a bucha da espingarda incendiá-la; às roupas, molhadas pelo relento, dificilmente se comunicaria a chama. 

 Por isso diziam os rapazes a galhofar, enquanto preparavam as clavinas: 

 No coração da moça!  

E todos ardiam em desejos de acertar, como um bom presságio da chama que haviam de atear no coração das namoradas, durante aquela noite de risos e folgares. 

 Foi Afonso quem primeiro atirou. 

(continua...)

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