Por José de Alencar (1875)
D. Flor, que já apeava-se, foi tomada de uma surpresa dolorosa; e pasma com aquela audácia, racíu sôbre a sela. No primeiro assomo de sua indignação não se lembrou quem estava diante dela e não cia alí senão um homem que tivera a insolência de tocá-la.
A haste do chicotinho, brandida por sua mão irritada, vibrou no ar; mas a donzela tivera tempo de dominar êsse ímpeto de cólera. Retraiu-se em uma altiva dignidade.
— Arnaldo!
O sertanejo permanecia imóvel, e sofreu em silêncio, impassível, mas resoluto, a repreensão que provocara.
— Não esqueça o seu lugar, Arnaldo, continuou D. Flor com severidade. A ternura que tenho à sua mãe não fará que eu suporte estas liberdades. A culpa é minha, bem o vejo. Se não lhe desse confianças, tratando-o ainda como camarada de infância, não se atreveria a faltar-me ao respeito. Lembre-se, porém, que já não é um menino malcriado; e sobretudo que eu sou uma senhora.
— Minha senhora?… disse Arnaldo, carregando nessa interrogação com acerba ironia.
— Sua senhora, não, tornou D. Flor com um tom glacial; não o sou; mas também, a-pesarde nos termos criado juntos, não sou sua igual.
Arnaldo ajoelhou-se de novo como para oferecer a espádua à moça; e disse-lhe provocando-a com o olhar.
— Se a ofendí, castigue-me; não tem na mão um chicote?
— Não, e arrependom-me de meu primeiro movimento. Mas, se outra vez esquecer-se do respeito que me deve, Arnaldo, eu me queixarei a meu pai, para que êle o corrija.
Ditas estas palavras no mesmo tom severo e altivo, a donzela acabou de abater o sertanejo com um olhar de rainha e afastou-se, encaminhando o animal para a casa. Pouco adiante saltou da sela, e foi reunir-se à mãe que também acabava de apear-se.
Esta cena passou-se rapidamente, com um aparte ao movimento geral da desmonta. Entretidos consigo, os outros não perceberam a súbita ação de Arnaldo ao arrancar as flores, e o incidente que sobreveio.
Erguera-se o moço sertanejo com arrogância ao ouvir o nome do capitão-mór com que o ameaçou D. Flor, e acompanhou a donzela com um olhar de desafio, até que ela entrou em casa.
Então Arnaldo saltando de novo no sela, meteu as esporas no Corisco e disparou da ladeira abaixo.
Correu direito ao Bargado; ia resolvido a desafiar o Marcos Fragoso, matá-lo para vingar nele a humilhação que acabava de sofrer, e depois deixar-se matar para assim punir-se do crime de haver ofendido o melindre de D. Flor.
A fazenda do Bargado estava deserta, e Arnaldo apenas alí encontrou a família de um vaqueiro inválido, que ficara para guardar a casa. Disse-lhe a mulher que o capitão Marcos Fragoso tinha partido uma hora antes para Inhamuns levando toda a sua comitiva e mais o José Bernardo com a gente da fazenda.
Desconfiou Arnaldo dessa partida precipitada, e receou que ela escondesse algum novo embuste. Desde que um perigo ameaçava a tranquilidade da família a quem se devotara e a segurança de D. Flor, o sertanejo esquecia-se de si, para só ocupar-se com a defesa dos entes que estremecia.
Seu primeiro cuidado foi dirigir-se ao lugar da emboscada. Já não havia alí viva alma; todos os bandeiristas haviam desaparecido; mas ainda viam-se pelo chão as peias de rêlho, cortadas a ferro.
Eis o que sucedera.
Marcos Fragoso ao despedir-se do capitão-mór, tomara à direita, e reunido diante ao Ourém e mais companheiros, ganhara o atalho, que rodeando o alagado devia pô-los a caminho do Bargado. Êle conhecia perfeitamente êsse desvio, por tê-lo percorrido na véspera com Onofre.
Esperava o moço capitão alcançar pouco além dos Baús o Onofre e a escolta, que êle acreditava conduzirem D. Flor, conforme suas recomendações e o plano anteriormente combinado. Tudo correra como se esperava; e já ouvia-se a pequena distância o tropel da cavalhada.
Na desfilada em que iam, não era possível travar conversa; mas Ourém pôde trocar êste curto diálogo.
— Que é isto, primo Fragoso? Refrega de castelhanos?
— É a princesa que levamos.
— Ah! bem me queria parecer!… Pois vamos lá como D. Gaiferos:
Finca esporas no cavalo
Que o sangue lhe faz saltar;
Ei-lo que corre, ei-lo que voa,
Ninguém o pôde alcançar.
E ferrando por sua vez os acicates no cavalo, Ourém lá se foi no encalço do primo.
Afinal, quando saíram da mata para o descampado, pôde Marcos Fragoso acistar a cavalhada que ia-lhes na dianteira cêrca de cem braças. Não foi pequena a sua surpresa e dos companheiros notando nos animais selados e arreados a completa ausência de cavaleiros.
Pensou Fragoso que os animais tivessem arrancado por surpresa, deixando Onofre e a escolta desmontados. Enquanto o José Bernardo dava cêrco aos cavalos, voltou êle sôfrego ao sítio da emboscada, esperando chegar ainda a tempo de tomar D. Flor ao arção e fugir com ela.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.