Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Rir-me.
– Então entendes que devo...
– Zombar dele.
– Como?...
– Como te parecer.
– Mas eu não sei fingir.
– Pois desengana-o; isso também me diverte. Ainda não vi como fica o rosto de um desenganado.
– Tu és louca.
– Vamos!
– Hei de arrepender-me deste passo.
– Ao contrário, prevejo que terás de agradecer-me. Vamos! Não te lembras que o sr. Salustiano nos espera?
Mariquinhas tomou a mão da “Bela Órfã”, e levou-a quase à força para o andar inferior.
Quando as moças acabavam de descer a escada, correu-se a cortina que tapava a portinha do fundo, por onde se comunicavam as câmaras de Mariana e de Celina.
Um homem aproximou-se com precaução e cuidado da mesa, junto da qual tinham as moças conversado.
A gaveta dessa mesa estava fechada, mas Celina havia-se esquecido de tirar a chave.
O homem abriu a gaveta, tirou dela os papéis que continham – a história do amor da “Bela Órfã” – e saiu com tanto cuidado e precaução como entrara. Esse homem era o velho Rodrigues.
CAPÍTULO XXVIII
ELAS E ELE
ENTRARAM as duas moças na sala, e Salustiano, que se tinha recostado a uma janela, voltou-se para recebê-las.
Sentaram-se todos três.
Era bem de estudar-se a expressão fisionômica de cada uma daquelas três personagens.
Celina, que havia sido trazida quase à força para a sala, mostrava-se contrafeita e acanhada; sentou-se bem unida a Mariquinhas, cuja mão apertava como procurando uma defesa.
Salustiano esforçava-se para ostentar a impassibilidade de que se jactava; mas não podia esconder de todo a comoção que sentia na presença da moça que amava, e o quanto o contrariava uma terceira pessoa, que ele não queria encontrar ali naquela ocasião.
Mariquinhas completava o grupo. No meio dos dois desapontados aparecia risonho, belo e malicioso o rosto da interessante moça. Seus olhos vivos e travessos confundiam realmente Salustiano, que, a pesar seu, já não tinha sarcasmos para suas palavras, nem para seus sorrisos.
– Sinto havê-la incomodado... tinha dito Salustiano muito desenxabidamente.
– Oh! não, não nos incomodou, respondeu Mariquinhas; deu-nos ao contrário muito prazer.
– Seria isso possível?... perguntou o moço, fitando os olhos em Celina.
– Pois ainda duvida?... tornou a primeira.
– Perdão, minha senhora; mas considero tão subida essa felicidade que muito me custa acreditar nela.
– Ora esta!... eu achava a coisa muito simples!
– Talvez para V. Exa.
– Digo mesmo que a sua visita foi um verdadeiro obséquio que V. Sa. nos fez.
– Lhes fiz?! V. Exa. fala em nome de mais alguém?... perguntou sorrindo-se o moço.
– Certamente: falo também em nome da minha amiga.
Celina apertou com força a mão de Mariquinhas.
– Ai! não me apertes a mão, d. Celina!...
– Ora, d. Mariquinhas, você está sempre brincando!
– Mas, como eu dizia, V. Sa. nos fez um verdadeiro obséquio aparecendo aqui.
– Bem... suponhamos que V. Exa. não está apenas dizendo palavras muito lisonjeiras; suponhamos que eu tenho a vaidade de acreditar que fiz um verdadeiro obséquio a V. Exas. aparecendo aqui; devo porventura concluir que eu era esperado e desejado?
Mariquinhas pensou um momento; sorriu-lhe a malícia nos lábios, e depois respondeu:
– Esta d. Celina compromete as amigas terrivelmente! é capaz de conservar-se em silêncio um dia inteiro!
– Tenha V. Exa. a bondade de responder por ela.
– Pois bem: digo que não era positivamente V. Sa. quem desejávamos ver.
– Eis aí o que eu não compreendo.
– Queríamos a presença de um de certos cavalheiros, e V. Sa. serve-nos a mil maravilhas.
– Posso saber para quê?...
– Para um estudo particular.
– Ora!... eis-me compreendendo ainda menos do que ainda há pouco.
– Trata-se de um segredo de moças.
– Bem... não perguntarei mais nada.
– Oh! pelo contrário, pergunte. Eu sou como as outras; quando tenho um segredo, fico louca para contá-lo a todos; na alma de nós outras, um pensamento que se não deve revelar não é um segredo, é um martírio.
– Então, o que é segredo?
– Para as moças?...
– Sim, minha senhora, o que é um segredo para as moças?
– É uma coisa que se diz baixinho aos ouvidos de quase todos.
– Pois, nesse caso, minha senhora, peço a V. Exa. que, se me julgar digno disso, diga-me o seu segredo, ainda que seja baixinho.
– Oh! este pode-se contar em voz alta.
– Se portanto me supõe digno...
– Sem dúvida que o julgo; até V. Sa. nos há de servir de muito.
– Estou à espera, minha senhora.
– Trata-se de um romance...
– De um romance?!
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.