Por Lima Barreto (1911)
Já fiz muito irrelatório lá na roça...
Lucrécio foi acusado de dar tiros, a polícia pôs-se em campo e afirmou que não era possível que ele tivesse feito semelhante coisa, a não ser com os pés, pois não tinha as mãos. Barba-de-Bode apareceu durante alguns dias com os braços dentro do casaco, pedindo, nos botequins que lhe levassem a bebida aos lábios.
A mulher, porém, é que continuava a temer pela sorte do marido. Conhecialhe o gênio irascível, habituado, agora, às violências, sem temor; sentia a injustiça da causa a que servia, e via bem em torno dela a indignação, a fúria do povo, de toda a gente, contra Bentes, contra Campelo, contra os valentões assalariados, como o marido.
Ela sempre quisera que voltasse ao ofício, que trabalhasse com regularidade, que contasse unicamente com o salário exíguo da oficina; mas o marido, às vezes com bons, outros com maus modos, resistia e metia-se na tal política, no jogo, nas desordens.
Um dia ou outro, voltava para casa com quantias de certo porte e ela, um instante, esquecia os perigos da vida que levava, da maneira injusta que empregava a sua bravura.
Moravam ainda na mesma casa da Cidade Nova e não havia por ela mais abundância do que em outros tempos. Aquela vida era precária; e o dinheiro que Lucrécio recebia ia logo para pagamentos e despesas.
Naquela manhã, Ângela estava à janela esperando que o pequeno passasse vendendo o jornal do bicho. O filho estava na escola e Ângela não pudera mandar buscá-lo cedo. Esperava que o vendedor passasse quando viu um senhor de certa aparência entrar na venda. Quase todos que passavam na rua ela conhecia e um estranho logo lhe feria a memória. O senhor saiu da loja trazendo atrás de si o dono, que apontou para ela. O homem aproximou-se; logo que chegou bem junto a ela indagou:
— É aqui que mora o Sr. Lucrécio?
— É. Que deseja?
— Desejo falar com ele.
Imediatamente Ângela pensou que ali estivesse um dos graúdos para os quais o marido trabalhava. Sem detença, abriu a rótula e fê-lo entrar para a sala, onde os santos ser amontoavam no oratório sobre a cômoda, com o ramo de arruda, na água, ao lado.
— Faça o favor de sentar-se.
Ela olhou o homem que era claro, cabelos brancos, e uma aparência toda de esforço e trabalho. Vinha vestido de fraque e as botas eram boas e justas nos pés.
— Meu marido está dormindo, mas vou acordá-lo. Faça o favor de esperar.
Sentado, o visitante olhou a casa, os móveis pobres, tirou o pince-nez e enxugou em seguida o suor do rosto. A mulher de Lucrécio voltou logo e ele pode dizer:
— Este Rio está muito mudado. Quase não o conhecia mais... Reformaram quase todo.
— Há muito que não fazem outra coisa senão por abaixo casas... E as coisas encarecem de uma forma, meu senhor, que não sei onde iremos parar.
A mulher retirou-se com a entrada de Lucrécio na sala:
— Bom dia.
— Bom dia.
O recém-chegado apressou-se em apertar a mão do dono da casa e ambos sentaram-se em seguida.
— Sou o Dr. Gama Silveira, engenheiro.
— Tenho muito prazer em conhecê-lo.
— Venho aqui, senhor Lucrécio, pedir-lhe um favor.
— No que for possível, Doutor!
— Estou há muito tempo como engenheiro do governo de Palmeiras... Não sou moço, tenho filhos e não há meios de ser promovido.
— De que partido é o senhor?
— Não tenho partido.
— É por isso.
— Mas sempre fui admirador do general Bentes, seu amigo, e agora era ocasião para me fazer justiça.
— Mas...
— Eu desejava, senhor Lucrécio, que o senhor, junto ao seu grande amigo...
— As nossas relações não são tão grandes.
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.