Por Aluísio Azevedo (1897)
"Será aberração moral? Será depravação física? Seja o que for, não poderia eu de hoje em diante ficar ao teu lado, sem te enganar a todos os momentos. Fujo para longe de nós dois, na esperança de viver entre desconhecidos e separada de mim mesma. Uma multidão de estrangeiros é o mais completo isolamento em que eu conheço andar entre eles é vagar entre sombras de estátuas. Terás ao menos no teu abandono a consolação de que nunca pertencerei a outro homem; este corpo que te arranco das mãos jamais cairá nas garras de outro dono. Ah! isso jurote eu pelos olhos e pelos cabelos de minha Laura! E adeus.
"O que aí vai escrito, é a expressão franca da verdade. Despejei o coração até ao fundo para ficar mais leve, e fugirte mais ligeira; bastame o preço que lá levo do teu dinheiro! Tens que me absolver com o teu perdão, ou me amaldiçoar com uma perseguição judicial. Não consultes para esse fim o teu coração, consulta só o teu espírito, e, conta, no primeiro dos casos, com o meu reconhecimento de bom camarada. — Ambrosina."
Gabriel soluçava ao terminar a leitura. Só então erguendo o rosto, deu com Jorge, que havia entrado sem ser percebido.
— Caramba! disse este. O senhor ainda aqui?! Pois não partiu?!
Gabriel respondeu com um gesto desabrido, e apontoulhe para o toucador onde se achavam as cartas.
— Pois o tal Melo está seguro até à meianoite! acrescentou o cocheiro, tomando a carta que lhe era dirigida. Mas o senhor dessa forma não pilha o vapor!...
Gabriel não respondia, chorava encostado a um móvel, com a cabeça escondida nos braços.
Jorge abriu à carta, sobressaltado por ter reconhecido a letra de Laura.
É proporção que lia, uma terrível palidez ganhavalhe o semblante. Os olhos foramselhe dilatando com uma expressão de espanto e desespero, os lábios se contraindo, as ventas se distendendo, até que da fronte lhe começou a porejar o frio suor das grandes agonias.
De repente, passando da palidez a uma vermelhidão apoplética, escancarou a boca com um bramido de dor, e caiu de borco sobre o soalho.
A casa tremeu, como se houvesse desabado ali no chão um colosso de bronze.
XXXI
DESTROÇOS DA TEMPESTADE
A carta que lançou por terra o cocheiro Jorge era uma despedida da filha, declarando a seu modo os motivos que a arrastavam naquela viagem clandestina. Educação, temperamento, insuficiência de meio social, tudo isso ressaltava das palavras que a infeliz dirigia ao pai; este porém, nada viu nem compreendeu senão que a filha abandonava a casa paterna, e tanto bastou para fulminálo.
Laura, todavia mostravase na carta muito comovida e fazia ardentes promessas de boa conduta. Nada serviu para suavizar o golpe.
O pobre homem permanecia de bruços no chão. Gabriel correu a socorrêlo, arrastouo até a cama, e conseguiu com dificuldade estendêlo sobre ela. Jorge não dava acordo de si, e tinha o rosto congestionado.
A situação tornavase cada vez mais penosa. Gabriel chamou várias vezes por ele, sacudiulhe vigorosamente os ombros. Nada! o homem continuava inanimado, a tirar da garganta uns grunhidos aterradores.
O rapaz correu então à sala, abriu as janelas. Estava aflito! precisava de alguém que se encarregasse do cocheiro, porque ele não podia deixar de ir a bordo. Mas o silêncio da rua desesperouo. A tarde fechavase de todo, e os primeiros lampiões constelavam o arrabalde com a sua luz ainda vermelha.
Gabriel deu lume a outros bicos de gás, e resignouse a aguardar os acontecimentos. A cabeça andavalhe aí roda e estalava de febre. Entretanto urgia tomar qualquer resolução; aquele homem podia morrer ali, se lhe não ministrassem prontos socorros!... Era preciso descobrir um médico! Que falta fazia o Gaspar naquela ocasião!...
Gabriel havia já resolvido sair, a chamar algum vizinbo, quando ouviu tocar a campainha do jardim.
— Enfim! disse ele, como se esperasse por quem batia.
E, pouco depois, entrava na sala Genoveva, pelo braço de Alfredo.
A viúva do comendador Moscoso vinha sufocada de ansiedade.
— Estimo que chegassem! exclamou Gabriel, assim que os viu; precisava sair imediatamente, e não tinha ânimo de deixar aqui este pobre homem sozinho! Tenham a bondade de ficar com ele... Eu já volto ...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.