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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

O secretário morreu no dia seguinte.

E nunca mais se ouviram as três pancadas que soavam, partindo do meio da enfermaria.

Foi assim que S. Diogo tomou o altar de S. Pascal Bailão, e que S. Pascal Bailão foi desterrado para o pátio e encerrado em um nicho de pedra e cal defronte do jardim da enfermaria.

Não sei que fundamentos seguros têm a parte miraculosa da história que acabo de contar. Não sei avaliar o quinhão com que concorreu para ela a imaginação exaltada dos religiosos. Sei, porém, e afirmo que tudo quanto disse é tradicional no convento de S. Antônio da cidade do Rio de Janeiro.

Deixemos o pátio e continuemos o nosso passeio, entrando de novo no segundo andar do convento.

Eis aí o salão da biblioteca, salão vasto e bem disposto, que pode ser constantemente banhado de ar, e que, pela sua situação, está tão exposto ao vento como livre da poeira que se levanta das ruas da cidade.

Apesar destas felizes condições, os livros da biblioteca, que cobrem as quatro paredes do grande salão, foram em grande parte atacados pela traça, que soube pressurosa aproveitar-se de não poucos anos de abandono.

Enquanto se lia pouco, a traça trabalhava muito.

Pois, foi pena, porque a biblioteca é muito rica de obras antigas, especialmente sobre assuntos teológicos, Filosofia, História e Geografia.

Atualmente trabalha-se com atividade no convento em limpar e reencadernar os livros e em organizar com a precisa regularidade o seu catálogo.

É o único meio de não se perder toda essa riqueza.

Saindo da biblioteca, vamos um pouco além encontrar um corredor que nos levará ao salão dos provinciais. Antes, porém, de chegar a esse salão, devemos entrar na secretaria e no consistório do convento, que ficam no corredor e que foram preparados por ordem do atual e zeloso provincial, o padre-mestre frei Antônio do Coração de Maria e Almeida, quando uma parte do primeiro andar da casa teve de ser cedida para o Arquivo Público.

A secretaria da província está em uma sala pequena, mas decente e bem ordenada, graças aos inteligentes trabalhos que ali foram ultimamente executados, assim como no consistório que lhe fica contíguo.

O arquivo do convento estava no mais triste desprezo. O bolor, o bicho e o tempo foram muito tranqüilamente destruindo verdadeiras preciosidades, de modo que há poucos anos, quando o atual provincial mandou encadernar os livros dos diversos conventos da província e as coleções regulares dos antigos manuscritos, achou-se falta de muitos, estrago de outros, e perda da antiga crônica do convento.

No consistório torna-se digno de atenção o altar, onde se vê:

uma relíquia do santo lenho em um nicho de primorosa execução, que ao convento de S. Antônio legou o cardeal Callepi.

Creio que não há o menor inconveniente em dizer algumas breves palavras a respeito deste cardeal.

D. Lourenço Callepi, arcebispo de Nisibi, era o núncio apostólico junto à corte de Portugal, quando teve lugar, em 1807, a invasão desse reino pelo exército francês.

A família real portuguesa preferiu retirar-se para o Brasil a entregar-se à mercê da política e do despotismo do célebre conquistador moderno.

D. Lourenço Callepi obedeceu ao dever do importante cargo que exercia, e logo que lhe foi possível, deixou a Europa e atravessou o Atlântico para continuar no Brasil a sua nunciatura. Chegou à cidade do Rio de Janeiro no dia 8 de setembro de 1808, e foi por ordem do príncipe regente hospedado dignamente no mosteiro de S. Bento.

D. Lourenço Callepi foi, portanto, o primeiro núncio apostólico que se apresentou no Brasil.

Em 1816, o Papa Pio VII declarou Callepi cardeal presbítero da santa igreja romana, e a 23 de junho do mesmo ano, o Rei D. João VI pôs o barrete cardinalício na cabeça do venerando ancião, tendo lugar a solene celebração desse ato, que era pela primeira vez observado na América, na sala do trono do palácio real do largo do Paço.

D. Lourenço Callepi bem pouco tempo usou do barrete cardinalício, porque, no dia 10 de janeiro do ano seguinte, 1818, caiu fulminado por um ataque de apoplexia, e foi sepultado com grandes honras no convento de S. Antônio, conforme o desejo que ele próprio manifestara, no caso de falecer na cidade do Rio de Janeiro.

Frei Francisco de Santa Teresa S. Paio foi o orador sagrado que se encarregou da oração fúnebre do primeiro purpurado que se sepultou no Brasil.

Chegamos finalmente ao salão dos provinciais, que não excede em proporções ao salão dos guardiães.

E ainda aqui temos por único, mas precioso, ornamento do salão quatro grandes quadros, que são também, como no dos guardiães, quatro retratos.

Mostram-se nas faces das quatro paredes as imagens de uma santa, de um rei e de dois imperadores.

(continua...)

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