Por José de Alencar (1872)
Não estava Guida, essa manhã, no seu natural, que era uma doce jovialidade, salpicada às vezes de ironia, e outras de meiga afabilidade. Em seu vulto perpassava, como na face cristalina de um lago, as mutações do pensamento. Ao entrar tinha ela a atitude séria e concentrada, porém ao mesmo tempo decidida e serena, de quem atravessa um momento difícil da vida, mas arrima-se, para transpô-lo, a uma resolução inabalável.
A conversa tirou-a dessa reserva, sem contudo dissipar-lhe de todo na fronte a sombra da preocupação. Buscou reassumir o seu gentil e gárgulo sorriso, mas a harmonia e a graça dessa mimosa expressão ressentia-se de uma ligeira crispação. As fibras nervinas desse delicado organismo, alguma forte comoção as tinha percutido.
Agora, em meio de um gracejo, deixava-se colher por súbita distração, como se o pensamento, transformado em uma borboleta, lhe fugisse pela janela a farfalhar entre as flores do jardim; mas, a ser assim, depressa achara a idéia que buscava, pois tornou logo à conversa.
- Dickens?... É o autor de sua paixão, disse afinal confirmando o aceno, e com uma ligeira confusão.
Delicadamente Ricardo fingia observar Mrs. Trowshy, para não se mostrar apercebido do enleio da moça. -
Gosta dos romances ingleses? perguntou Guida.
- Poucos tenho lido. A literatura francesa nos invadiu; e por algum tempo foi nosso único fornecedor de idéias. Das outras apenas conhecíamos as obras-primas, os grandes poetas. Ultimamente já entramos em comércio com outras literaturas; mas a mim falta-me o tempo e o gosto.
- Alguns acham os romances ingleses muito insípidos.
- É natural. Somos uma raça tão diversa! Eles hão de achar os nossos extravagantes.
- Oh! quanto à extravagância, quero contar-lhe o desfecho de um que li há tempos; creio que é de... Não me lembro! disse Guida com certo assomo nervoso.
Fitou a moça os olhos nas grinaldas que pendiam da janela, acompanhando o volutear de um colibri que chupava o mel das flores. Deste modo não se podia cruzar o seu olhar com o do advogado.
- O título... não me lembro. Era uma moça, filha de um banqueiro muito rico. Quanto à descrição, imagine o senhor, que sabe desenhar: o romancista a dá como bonitinha; não era nenhum primor; bem longe disso.
- Aí está-se revelando a escola inglesa, observou Ricardo.
Riu-se Guida maliciosamente da observação do moço, e continuou:
- O pai tinha declarado à filha quando ela tornou-se moça, que a não constrangeria, mas ao contrário lhe deixava plena liberdade para escolher um marido; contanto que chegando aos dezoito anos se casasse. Também é inglês, não lhe parece?
- Genuíno.
- Vai ver o resto. Chegou a moça aos dezoito anos; e completou os dezenove. O pai exige o cumprimento da promessa.
- E ela casa-se! exclamou Ricardo com vivacidade, levado por estranho impulso.
Retraiu-se porém o moço e desfolhou dos lábios um irônico sorriso. Guida, que deixara suspensa um instante a exclamação do moço, continuou galanteando:
- O senhor quer precipitar o desenlace. Não seja tão sôfrego. Ouça; temos muito tempo. Avozinha não vem tão cedo.
Guida parecia recobrar sua habitual isenção a garridice:
- O pai exigiu o casamento; mas a moça não tinha escolhido.
-Ah!
- E não só não tinha, como não podia escolher. A ninguém amava; não conhecia um homem por quem sentisse as doces emoções, os estremecimentos, que fazem a felicidade conjugal. Donde provinha isto, não sabia explicar o romancista, e menos eu. Não teria coração essa moça, ou se lhe havia cegado? Era isso feito da educação, ou da sociedade em que vivia, cercada de galanteios ridículos, de cálculos vis, e de grosseiras afeições? Pode ser que sucedesse à alma da moça o mesmo que a um botão de cacto, quando há tempestade: choca e não abre em flor. Pode ser!
- Mais tarde. Quem sabe! disse Ricardo sorrindo.
- É a minha...
Atalhou-se Guida em cujas faces espontava um vislumbre de púrpura. Ricardo olhava-a com emoção.
- “É minha esperança”, repetiu Guida pausadamente. Assim disse a moça, uma vez que lhe acudiu esse mesmo pensamento. Mas os dezoito anos eram passados; fugia o tempo, e seu pai que a amava extremosamente, afligia-se com a idéia de a deixar só no mundo à mercê da especulação. Reconheceu a moça que era forçoso o sacrifício; e não hesitou em jogar seu destino ao azar, para sossego de quem morria-se por ela. Escolheu.
Ricardo recolheu-se todo em si como se tivesse de assistir a uma importante revelação.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.