Por José de Alencar (1875)
O baio não o seguiu como êle esperava; mas seguiu-o Arnaldo que breve o alcançou e, derribando-o da sela, puxou-o para dentro da espessura, onde o deixou peado como os companheiros.
O sertanejo imitou então o canto da saracura, enquanto Jó espantava os cavalos emboscados, que partiram à desfilada na direção do Bargado.
Marcos Fragoso, ouvindo a senha convencionada e o tropel dos animais, acreditou que D. Flor estava em seu poder, e despediu-se arrogantemente do capitão-mór, dando aviso aos companheiros para que o seguissem.
Entretanto D. Flor e Alina transpunham o lugar da emboscada sem o menor acidente, e D. Genoveva moderava a marcha de seu cavalo para reunir-se ao marido e saber dele a razão da repentina partida do Ourém e seus companheiros.
Ao passar por diante de Arnaldo oculto na espessura, D. Flor perguntava a Alina.
— Onde estão suas flores, menina?
— Que flores, Flor? retorquiu a moça, brincando com a palavra.
— As que nos trouxe o Marcos Fragoso.
— Deixei-as ficar, respndeu Alina com indiferença.
— Pois das minhas fiz um aderêço! Olhe! disse a gentil donzela, apontando para os pingentes escarlates que lhe ornavam o colo e os cabelos. Não parecem rubís.
— São muito galantes; mas eu prefiro esta que você me deu, tornou Alina sorrindo e mostrando a umbela que Arnaldo colhera, e que ela trazia ao seio. D. Flor ficou séria e fustigou o baio, que partiu a galope.
O capitão-mór havia alcançado D. Genoveva; e referia-lhe agora quanto se passara com o Marcos Fragoso, desde o pedido que êste lhe fizera da mão de D. Flor, até à recusa formal e terminante que recebera.
D. Genoveva, quando pela primeira vez, quinze dias antes, conversara com o capitão-mór acêrca dêsse particular, mostrara-se inclinada ao sobrinho Leandro Barbalho, e até dera a entender que não tinha em bom conceito ao Marcos Fragoso.
Desde, porém, que o capitão-mór decidira-se por êste, ela como fiel espôsa, habituada a identificar-se completamente com a vontade do marido, passou a considerar Marcos Fragoso já como o noivo de sua querida Flor.
O mais ardente desejo da boa mãe era vera filha casada, embora quando pensava nisso estremecesse com a idéia de uma separação por mais breve que fosse. A êsse respeito, porém, a tranquilizava o capitão-mór, que estava resolvido a impor ao futuro genro a condição de viver debaixo do mesmo teto.
O desfecho da pretensão do Marcos Fragoso devia, pois, entristecer a D. Genoveva, que viu adiado o casamento por ela tão ardentemente desejado. A boa senhora não compreendia o motivo que tivera o capitão-mór para recusar um genro que êle mesmo, de sua própria inspiração, havia escolhido entre outros e preferido a todos.
Mas ela acatava as decisões do marido, e não tinha o costume de discutí-las, pois depositava a maior confiança na prudência, como no amor, daquele a quem havia unido o seu destino.
A pergunta que fez não teve outro fim senão saber do motivo que determinara a deliberação do marido para melhor compenetrar-se dela.
— Por que foi então que o despachou, sr. Campelo?
— Porque atreveu-se a pedir D. Flor.
— Não é costume?
— Nossa filha, D. Genoveva, não é para ser pedida, como qualquer moça aí do mundo. Não foi para isso que nós a criámos. Eu tinha-me lembrado dêsse Fragoso, mas êle adiantou-se e com tamanha arrogância, que já se julgava noivo.
Passava de meio-dia, quando o capitão-mór chegou com sua família à Oiticica.
D. Flor dirigira o cavalo para baixo da árvore a fim de apear-se na sombra. Arnaldo a seguira, e saltando em terra, ofereceu-lhe o ombro como um escabêlo.
A donzela estava então encantadora. A agitação do passeio e os raios do sol tingiam-lhe as faces de uns laivos de púrpura, os olhos tinham um brilho vivo, e as lindas flores escarlates entrelaçadas em suas negras e bastas madeixas, formavam-lhe um toucado gracioso. Dir-se-ia que não eram flores, mas os sorrisos feiticeiros de seus lábios de carmim, que lhe serviam de jóisas para a fronte e de broche para o seio do roupão.
Arnaldo, vendo aquelas flores que ainda mais formosa tornavam a donzela, sentiu o coração traspassado.
— Tire estas flores! disse êle, ajoelhado junto ao estribo e com a voz suplicante.
— Por quê? perguntou a donzela admirada.
— Têm veneno! balbuciou o sertanejo.
— Devéras! tornou D. Flor com um riso de mofa.
Arnaldo ergueu-se de um ímpeto, e antes que pudesse dominar o violento impulso de sua alma, arrancara da cbeça e do seio da donzela as flores, que arrojou ao chão, e esmagou com a ponta da bota, como se fossem um réptil venenoso.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.