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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

— E quando isso, se vos lembra? 

— Esperai! Estou com os meus cinqüenta e nove... 

O escudeiro contou pelos dedos consultando o seu calendário, que era a sua idade. 

— Foi por este tempo, há um ano; princípios de março. 

— Estais bem certo? exclamou mestre Nunes. 

— Certíssimo; é conta que não engana. Mas que tendes? 

Com efeito mestre Nunes se erguera espantado. 

— Nada! Não é possível!

— Não acreditais? 

— É outra coisa, Aires! É um sacrilégio! uma obra de Satã! uma simonia horrenda!

— Que dizeis, homem, explicai-vos lá de uma vez. 

Mestre Nunes conseguiu restabelecer-se da sua perturbação e contou ao escudeiro as suas desconfianças a respeito de Frei Ângelo di Luca e da sua morte, que nunca fora possível explicar: notou-lhe a coincidência do desaparecimento do carmelita com o aparecimento do aventureiro, e o fato de serem da mesma nação. 

— Depois, concluiu Nunes, aquela voz, aquele olhar!... quando o vi hoje, estremeci, e recuei espavorido julgando que o frade tinha saído de baixo da terra. 

Aires Gomes levantou-se furioso, e saltando sobre o seu catre, agarrou o espadão que tinha à cabeceira. 

— Que ides fazer? gritou mestre Nunes. 

— Matá-lo e desta vez às direitas; que não torne. 

— Esqueceis que vai longe? 

— É verdade, murmurou o escudeiro rangendo os dentes de raiva. 

Ouviu-se um ligeiro rumor na porta; os dois amigos o atribuíram ao vento e não se voltaram; sentados em face um do outro, continuaram em voz baixa a sua conversa interrompida pela brusca revelação de Nunes. 

Entretanto fora passavam-se coisas que deviam excitar a atenção do digno escudeiro. O rumor que ouvira fora produzido pela volta que Rui dera à chave, fechando a porta. 

O aventureiro tinha ouvido toda a conversa; a princípio aterrado, cobrou animo, e lembrou-se que em todo o caso era bom estar senhor do segredo do italiano para qualquer emergência futura. Confiado nessa excelente idéia, Rui meteu a chave no peito do gibão e foi reunir-se a seu companheiro que estava de vigia junto da escada. 

Esperava por Loredano, que devia entrar na casa alta noite, para dirigir toda essa trama que havia urdido com uma inteligência superior. 

O italiano tinha facilmente iludido a D. Diogo de Mariz; sabia que o ardente cavalheiro ia de rota batida, e que não se demoraria em caminho por motivo algum. 

As três léguas do Paquequer, inventou um pretexto de ter-se quebrado a cilha de sua cavalgadura e parou para arranjá-la; enquanto D. Diogo e seus companheiros pensavam que os seguia de perto, ele tinha voltado sobre os passos, e escondido nas vizinhanças, esperava que a noite se adiantasse. 

Quando percebeu que tudo estava em silêncio, aproximou-se; trocou o sinal convencionado, que era o canto de coruja; e introduziu-se furtivamente na habitação. 

O mais já vimos. Sabendo que tudo estava preparado e pronto ao primeiro sinal, Loredano deu começo à execução de seu projeto e conseguiu penetrar no quarto de Cecília. 

Tomar a menina nos braços, raptá-la, atravessar a esplanada, chegar à porta da alpendrada, e pronunciar a senha convencionada, era coisa que ele contava realizar num momento. 

Quando Cecília arrancada do seu leito lançasse um grito que ele não pudesse abafar, isto pouco lhe importava; antes que alguém despertasse, teria chegado ao outro lado, e então a uma palavra sua o fogo e o ferro viriam em seu socorro. 

Rui lançaria a chama à palha preparada para esse fim; e a faca de cada um dos seus cúmplices se enterraria na gorja dos homens adormecidos. 

Depois, no meio desse horror e confusão, os vinte demônios acabariam a sua obra, e fugiriam como os maus espíritos das lendas antigas, quando a primeira luz da alvorada terminava o sabbat infernal. 

Iam ao Rio de Janeiro; ai, ligados todos por um mesmo laço do crime, por um mesmo perigo e uma só ambição, Loredano contava ter neles agentes fiéis e dedicados para levar a cabo a sua empresa. 

Enquanto a traição solapava assim o sossego, a felicidade, a vida e a honra dessa família, todos dormiam tranqüilos e descuidados; nem um pressentimento os vinha advertir da desgraça que os ameaçava. 

Loredano, graças à sua agilidade e à sua força, tinha conseguido chegar até ao leito da menina, sem que o menor rumor traísse a sua presença, sem que na habitação alguém tivesse podido perceber o que se passava. 

(continua...)

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