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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Impossível!...

O som com que a “Bela Órfã” pronunciou essa palavra foi tal, que tanto ela como Mariquinhas se deixaram ficar caladas durante algum tempo, tristes e pensativas.

No entanto serenou o ardor que fizera Celina exprimir-se com tanta viveza, de modo que, quando Mariquinhas quis continuar a conversação, já a achou perturbada e comovida como no princípio.

– Mas, d. Celina, ainda me não disseste o que eu desejo principalmente saber.

– O quê?

– Quem é o venturoso mancebo que tanto merece de ti.

A “Bela Órfã” hesitou.

– Se eu não quisesse saber também tudo quanto se tem passado entre ele e ti, continuou Mariquinhas, abster-me-ia de fazer-te esta pergunta.

– Por quê?

– Porque não acho muita dificuldade em adivinhar o nome daquele que amas.

– Já o adivinhaste, d. Mariquinhas?

– Ora!...

– Desde quando?

– Desde antes de teus anos.

– Foi na verdade bem cedo, respondeu Celina; porque então eu mesma apenas o suspeitava.

– Não duvido; isso acontece. Mas então dizer-mo?

– Para que, se tu já sabes?

– Seria possível que eu estivesse em erro.

– És muito viva para te enganares.

– Pois bem, dir-te-ei eu o nome, é porém com uma condição.

– Qual?

– Se eu acertar, hás de confessá-lo.

– Sim.

– Chama-se...

Celina olhou para Mariquinhas.

– Cândido.

A “Bela Órfã” abaixou a cabeça.

– Adivinhei?

– Adivinhaste, murmurou a moça.

– Levanta a cabeça; conta-me o que tem havido; não foi para isso que nos reunimos hoje?

Celina pensou um momento e disse:

– Sou uma louca.

– Tu?...

– Sim; mas ao menos a minha loucura poderá agora ser-me útil.

– Como?...

– Escrevi o que se tem passado comigo...

– A história do teu amor?...

– Sim...

– Um romance?!

– Não... uma verdade.

– Como não?... pensas que os romances são mentiras?...

– Tenho certeza disso.

– Neste ponto estás muito atrasada, d. Celina; os romances têm sempre uma verdade por base. O maior trabalho dos romancistas consiste em desfigurar essa verdade de tal modo que os contemporâneos não cheguem a dar os verdadeiros nomes de batismo às personagens que aí figuram.

– Pelo que ouço, d. Mariquinhas, tu já escreveste!

– Não, mas conversei já com um moço que escreve. Vamos porém ao nosso caso; deixa ver o teu romance.

– A minha história, tornou Celina, que abrindo a gaveta da mesa tirou algumas folhas de papel, e entregou-as com mão trêmula a Mariquinhas.

– “História do meu amor”, disse esta lendo; ah! eu tinha adivinhado o título.

– Peço-te que leias para ti só; eu me envergonharia muito se te ouvisse ler alto.

Mariquinhas começou a leitura da história do amor de Celina.

A “Bela Órfã” acompanhava com os olhos todos os movimentos, todas as impressões que aquela leitura produzia em sua amiga, corando se esta sorria, animando-se, tremendo, e confundindo-se segundo as expressões fisionômicas da leitora.

Quando Celina viu que os olhos de Mariquinhas volviam-se correndo pelas últimas linhas da derradeira página, abaixou de novo a cabeça, envergonhada e confusa.

– Bravo, d. Celina! estás em bom caminho para romancista; mas repara que não podes aproveitar muito no nosso país.

– Não zombes.

– Falo séria; porém, dize que destino pretendes que tenham estes papéis?... – Que destino?... o fogo.

– O fogo?!

– Sim; queimá-los-ei, respondeu soltando um suspiro a “Bela Órfã”.

– Não; não cometerás um parricídio. Quando tua mão se erguer para lançá-los às chamas, tua alma, eu o juro, cantará os versos de Torquato: “Ah! não seria possível”.

– Pois então que poderia eu fazer deles?...

– Quem sabe?... estes papéis guardam-se. É possível que cheguem um dia às mãos do feliz mancebo que te moveu a escrevê-los.

– Oh! Deus me livre!...

As duas moças calaram-se de repente, sentindo que alguém subia a escada.

Celina guardou os papéis na gaveta donde os tinha tirado.

Apareceu uma escrava à porta do quarto.

– O que é?... perguntou Celina.

– O sr. Salustiano, respondeu a escrava.

– Dize-lhe que meu avô e minha tia saíram, respondeu “Bela Órfã”.

– Mas que nós descemos já para recebê-lo, acrescentou Mariquinhas.

– Não!

– Sim! vai: dize-lhe que o vamos já receber.

A escrava desceu.

– Que queres fazer, d. Mariquinhas?...

– Conversar, divertir-me.

– Oh! porém tu me comprometes; este homem é um maldito impertinente...

– Melhor.

– Requesta-me... diz-me loucuras.

– Ótimo.

– Eu o aborreço.

– Por isso mesmo.

– Que queres pois?...

(continua...)

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