Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Começaremos pela última.
Lucrécia, hábil e provecta, apesar de seus poucos anos, tinha compreendido, à primeira vista de olhos, que Otávio não era atendido por Honorina; ao mesmo tempo, porém, todas as ações, todos os passos, cada pensamento e cada palavra desse homem provavam até à evidência que ardente paixão concebera ele pela moça, e a que frio e ofensivo esquecimento estava a viúva condenada.
Lucrécia tinha em sua desmedida vaidade um horrível aparelho de torturas, ralada pelo qual via ela o belo quadro de seu passado apagado pela mão de Honorina; as viçosas flores de suas coroas de triunfo caídas, espalhadas por terra e aos pés dessa moça... e Lucrécia arquejava. Embora inocente, a filha de Hugo de Mendonça era a causa dos seus tormentos... era a mulher por quem Otávio a esquecia... era a sua rival, isto é, a sua inimiga...
Ora, é possível que um homem, esquecido, desprezado pela sua amada, nem por isso se exaspere contra aquele por quem ela o deixou, a quem ela procura inutilmente conquistar e prender: pode mesmo suceder que o ofendido aplauda e estime o outro, como a sua vingança, quando está firmemente convencido que esse é amado, mas não ama.
Uma mulher, porém, não pensa por essa maneira.
A mulher é o ente que tem o privilégio de levar todos os sentimentos dessa ordem ao seu mais elevado grau. Aquela que se sente traída pelo homem que a amava, vai com seu olhar terrível e brilhante adivinhar, no meio de uma multidão de belezas, qual é a que lhe prefere; e ainda que essa não se levante diante de seus projetos, que seja inocente no afeto que inspirou, que mesmo maltrate ao homem, que sem retribuição a requesta, ela a olha como uma rival, uma inimiga, um insulto vivo a seu amor-próprio de mulher.
E o pensamento que primeiro e naturalmente se lhe apresenta é este — vençamo-la!
Sim; porque aí há duas ofensas, que não se perdoam facilmente: há, antes de tudo, uma outra mulher que pode agradar mais do que ela; que parece levantar sua cabeça e sorrir-se orgulhosamente vitoriosa diante dela; e há, depois, um escravo perdido, um homem que andou de rojo, beijando suas pisadas, e que agora a desdenha... a esquece... a despreza por causa de outra.
E, pois, a essa outra se odeia... e se quer também e a todo custo vencer.
Sim; porque há um grande e talvez único pensamento na vida da mulher, que, durante quarenta anos, a ocupa toda; que se alimenta, se rumina, e por ele se vive: é o amor, pensamento que iguala a aldeã à princesa; porque podem ambas amar da mesma forma, com o mesmo fogo, e ao mesmo homem: pensamento que poderá fazer com que a princesa desça do palácio e vá à cabana combater a aldeã; pois, se esta for a rival preferida, aquela que não deixou de ser mulher para sentar-se tão alta; que se ufana de agradar também, há de sentir arder seu amor-próprio no desejo vivo de vencê-la; e de vencê-la somente, como mulher.
Mas, para vencer, é preciso combater: e a mulher não se lembra nunca de atacar o homem que a traiu, porque seu único anelo é rebaixar aquela que lhe preferiu.
E onde ir feri-la?... e como abatê-la?... a mulher conquista o homem pela força dos encantos do espírito e do corpo; porém, para destruir os encantos do espírito de uma rival, era preciso que a ciumenta pudesse chegar com seus lábios até muito em cima e apagar com seu sopro de boca humana a chama brilhante do Criador: e isso é absolutamente impossível; ou então, o que seria muito louvável e nobre, adornar o espírito próprio, enfeitá-lo, aproveitar-se de suas disposições, ilustrar-se e brilhar por si mesma. Mas essa é uma vingança morosa... que se espera muito... que vem chegar tarde...
Restam os encantos físicos. Há contra eles dois meios poderosos: a enfermidade e o tempo; porém, aqui ainda esses meios escapam, porque as enfermidades não são como as pedras, que no chão se apanham para lançar-se ao rosto do inimigo; e as pragas do ciúme e do ódio não chegam até o alto dos céus para realizar-se. O tempo não corre hoje mais depressa do que ontem correu e amanhã correrá: o tempo não sairia de seu passo igual, compassado e imutável à voz de ninguém; e, sobretudo, não seria nunca uma mulher quem, para cavar duas rugas no rosto de uma rival, consentisse em ver outras cavadas no seu.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.