Por Lima Barreto (1911)
O comandante disse que não sabia, mas que não havia necessidade de sabê-lo, pois se tratava de medida de suas atribuições, sendo ali a sua autoridade em tudo soberana.
— Pois bem — disse o homem — tenho imunidades; sou o senador Leiva, amigo de Bastos.
Retorquiu o comandante no mesmo tom de voz:
— Vossa Excelência há de perdoar-me, Sr. Senador, mas não posso voltar.
Nisso apareceu um indivíduo metido em boas roupas de onde desentranha a cabeça e exclama:
— Que desaforo! Desrespeitar um senador!
O comandante tentou convencer o parlamentar de que se podia servir dos binóculos de bordo, pois os havia muitos; mas o senador intimou:
— Quero o meu binóculo. Não quero outro. Ou o senhor volta e eu voto a autorização para o empréstimo da companhia, ou não volta e eu e a minha bancada faremos uma guerra tremenda ao projeto.
À vista disso, o comandante que sabia das dificuldades da empresa, tanto assim que não recebia os seus vencimentos havia três meses, virou de bordo e voltou para buscar o binóculo do senador Leiva, amigo de Bastos.
CAPÍTULO X
Os sequazes de Bentes acharam que o melhor meio de fazê-lo presidente do Brasil era impedir que houvesse eleições na capital do país. Todas as tendenciosas passeatas de batalhões, a inundação da cidade por valentões e capangas, a s ameaças de perda de emprego não lhes deram segurança de vitória; e houve neles, tal era o vigor da população, temor que, se a compressão se efetivasse, redundasse ela em trabalho mecânico inesperado, abrupto, uma erupção contra o sindicato que se acovardara diante das baionetas e iludia a própria consciência fingindo entusiasmo.
A seção eleitorais foram, pois, fechadas, os livros não apareceram e o Campelo com Totonho, outros do bando e oficiais foram vistos arrebatando-os dos carteiros do Correio.
Todas as ameaças e espécies de subornos empregaram contra os funcionários postais que tinham de lidar diretamente com os livros eleitorais; e Campelo, dias depois, nédio, ventrudo, dessorando gorduras, passeava o seu olhar trampolineiro sobre a população, do alto de um automóvel, entre Totonho e Lucrécio Barba-de-Bode.
Pensava este sempre no emprego; Campelo não se fartava de dizer que viesse o “homem” e ele estaria colocado de vez.
O reconhecimento de Bentes, poucos meses depois, foi feito com mais segurança, graças aos votos dos deputados já contados e empenhados; e assim mesmo, não deixavam os batalhões de sair às ruas, bandeiras desfraldadas, rufos de tambores, marchas heróicas, a oferecer batalhas ao país inteiro.
O nome de Lucrécio ficara famoso em todo o âmbito da cidade e subúrbios.Não lhe separavam o nome do general Bentes. Nas próprias notícias dos jornais lá vinham juntos os tópicos que se referiam a ambos.
A ação de Lucrécio foi animada e maravilhosa. Ele destruiu cartazes, apreendeu boletins, rasgou jornais, e, de onde em onde, dava um tiro de revólver.
Foi coisa comum naqueles dias dar tiros de revólver pelas ruas. A polícia nada apurava e o próprio chefe, Juca Chaveco, perguntava aos auxiliares:
— Que foi?
— O Lucrécio deu um tiro ontem.
— Quá! Brincadeira... Pau de fogo às vez queima por si...
Chaveco mostrou-se muito hábil na gestão policial da cidade. Não se podia imaginar que aquele caipira tão simples, tão bonachão, de aspecto tão medroso, procedesse de forma tão profundamente política e atual.
No inquérito dos crimes de Liberato que avocou à sua autoridade, escreveu o relatório mais original de que se possa ter notícia. Não havia dúvida, dizia ele, que os mortos tinham sido por balas de revólver, mas os revólveres alcançam muito longe e podiam ter sido disparados de outro lugar que não aqueles indicados nos autos fls. Quanto ao depoimento do médico, devia não ser tido em consideração como os de certas testemunhas por não estarem habituados a depor, não terem a prática suficiente de tão espinhoso ofício.
Chaveco era homem grato e não se detinha em consideração alguma de ordem moral ou intelectual para provar a sua gratidão. Dizia mesmo:
— Amigo é amigo. O compadre não fica má, nem à mão de Deus— Padre....
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.