Por Aluísio Azevedo (1895)
- O meu caso é muito diferente... resmungou por fim o Coruja - mas muito diferente... Quanto a mim, não se trata de vencer oposições de família; trata-se é de obter os meios necessários para que a senhora e sua filha não venham a sofrer dificuldades depois do meu casamento...
- Ora! Quem tudo quer, tudo perde!
Teobaldo interveio a favor da velha, aconselhando ao amigo que acabasse por uma vez com aquela história, que se casasse logo com a moça, e, depois de apresentar em linguagem colorida as vantagens do matrimonio, fechou o discurso oferecendo a sua casa e a sua mesa ao amigo, apesar de não saber ainda onde havia de se refugiar com Branca depois que a igreja os tivesse legalmente unido.
André abanou as orelhas a tais palavras.
- E por que não? insistiu o outro - não temos porventura conseguido viver juntos até hoje e em perfeita harmonia?... Para que havemos, pois, de separar-nos daqui em diante...
- Para não termos o desgosto, contraveio André, de vermos nossas famílias em guerra constante. Dois rapazes viverão eternamente em boa paz debaixo do mesmo teto; com duas senhoras a coisa é mais difícil e com mais de duas é impossível.
- Agora, isto é exato.. . confirmou a velha.
- É! arriscou Inez - Quem casa, quer casa!..
Mas declarou logo que, apesar disso, estaria por tudo que deliberassem.
- Pois eu, replicou Teobaldo, afianço desde já que não estou disposto, seja pelo que for, a dispensar a companhia do Coruja, ache-se ele casado, solteiro ou viúvo!
- Se sua mulher ou a dele estiverem por isso!... observou a velha, já em tom de contenda e disposta a armar questão.
- Ora! D. Inez não me parece das mais difíceis de contentar... disse Teobaldo sorrindo.
- Ah! eu estou sempre por tudo... confirmou Inez.
- E quanto a Branca.. . prosseguiu aquele.
- Desde que me case, atalhou a filha do comendador.
- Serei sempre da opinião de meu marido. Só a ele compete decidir.
D. Margarida, pela cara, mostrou não gostar de semelhante teoria; mas a filha em compensação por uma risonha careta que fez ao Coruja, deu a entender que subscrevia as palavras de Branca.
E por este caminho, a conversa deu ainda algumas voltas, até cair de novo no principal assunto: - o rapto, e, às cinco da manhã, quando se dispunham a levantar o vôo para a igreja, ouviram bater à porta da rua.
Teobaldo foi logo abrir.
Era o Sabino. Vinha a botar os bofes pela boca, e com muito custo declarou que estivera por um triz a cair nas unhas da Polícia.
- Mas fala por uma vez! disse-lhe o senhor impacientando-se. - Houve alguma novidade?- Já se sabe de tudo na casa do homem! explicou o moleque.
- O diabo!
- Ali pela volta das três horas, prosseguiu aquele, ouvi rumor dentro da casa, e, com poucas, era gente a passar com luz para uma banda e para outra, assim como coisa que caçassem alguém; eu me escondi na rua, atrás de uma árvore; eles desceram à chácara, deram com o portão aberto e, pelo jeito, toparam um lenço ou coisa que o valha, porque tudo ficou assanhado!
- E depois?
- Depois vieram á rua, não me bisparam e, tudo seguiu outra vez para riba, e aí foi um berreiro de todos os diabos, que nem se tivesse morrido alguém.
- Mas que teria sucedido, não sabes?
- Não sei não senhor, porque vim me embora...
Embalde procurou Teobaldo esconder de Branca o que acabava de ouvir: foi preciso dizer-lhe tudo, e ela desde então pôs-se a chorar, dominada por terríveis apreensões.
Daí a algumas horas boquejava-se em toda a cidade que a filha do comendador Rodrigues de Aguiar fugira de casa com um vadio de marca maior chamado Teobaldo, o qual a desposara clandestinamente às cinco e meia da madrugada na igreja de Santana; e que o pai da moça, assim que eu por falta desta e quando soube quem era raptor, caíra fulminado por uma congestão cerebral, morrendo logo em seguida, sem dar uma palavra. Bem dizia o Aguiar que o homem, se lhe chegassem um charuto aceso à ponta do nariz - estourava.
E, com efeito, estourou.
FIM DA SEGUNDA PARTE
TERCEIRA PARTE
I
Rolou um ano sobre o casamento de Teobaldo com Branca, e moram estes agora em Botafogo, naquela mesma casa em que o comendador perecera estrangulado pelo seu amor paternal.
A casa é a mesma, mas ninguém dirá que o é, pois desde a entrada notam-se em toda ela consideráveis transformações. O bom gosto de Teobaldo, aquele gosto aristocrata, herdado com o sangue de seu avô, fez do velho casarão, tristonho e assombrado, um confortável ninho afestoado e tépido.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.