Por Aluísio Azevedo (1897)
— Tolinha! Isso seria o mesmo que nos metermos numa ratoeira, porque Gabriel, logo que se achasse livre, expediria um telegrama para o primeiro porto, e eu seria presa como criminosa. Talvez não o fosse... ele me adora a tal ponto, que não teria ânimo naturalmente de proceder contra mim; mas o mesmo não sucede a respeito do teu pai, que para se vingar por lhe haver eu roubado a filha, seria capaz de entregarme à justiça! O que fazermos então?... Nada mais simples: Sairemos quanto antes desta casa, deixaremos aqui aquelas cartas que são — uma para teu pai, outra para Gabriel, outra para o Melo Rosa e outra para minha mãe, e tomaremos, não o paquete do Havre, mas sim um vapor brasileiro, que segue hoje mesmo para o norte. Com a leitura daquelas cartas e com a conclusão que provavelmente hão de tirar dos fatos, eles nos julgarão navegando para Europa e encaminharão para esse lado todas as suas pesquisas. Nós, entretanto, munidas de dinheiro como estamos, faremos simplesmente o seguinte: vamos daqui à agência, compramos duas passagens, metemonos a bordo, e às quatro horas estamos de partida. Para viajar dentro do Brasil, não precisamos de passaporte, porque somos brasileiras. Chegados, porém à Bahia, encerramonos em um hotel, até que tenhamos um paquete para a Europa. Então, o passaporte de Gabriel servirnosá admiravelmente... Tu te vestes de rapaz com essas roupas que levamos aí e ficarás sendo o Sr. Gabriel de Los Rios, meu marido, e continuarei a ser Ambrosina, tua esposa... Dessa forma, não seremos encontradas e, dentro de poucos dias, estaremos fora do alcance de qualquer perseguição.
Laura escutava tudo isto com um ar tímido e irresoluto. Batialhe o coração com ansiedade sob o peso de um terror indefinido.
Ambrosina compreendeu a comoção da pequena.
— Coitadinha! disse. Como és ainda ingênua!.. Mas, não te assustes, não tenhas receio, que te não sucederá cousa alguma!... A culpa de tudo será lançada à minha conta!... Não tens de que te envergonhar, não foges com um homem, e sim comigo, que te conservarei pura!
E beijoua.
— Porém, meu pai?!
— Mau! mau! não entremos nessas considerações! Não há tempo para isso. Deita o chapéu, que o carro não tardará aí.
Com efeito, pouco depois, rodava um carro à porta da rua.
— Pronto! Podemos ir! disse Ambrosina, tomando a sua bolsa, enquanto a outra fechava as janelas da casa. Depois saíram pelo portão do jardim, cuja chave escondeu aquela em certo cantinho entre as grades de ferro, como costumava fazer quando aí vivia com Gabriel.
A bagagem das duas raparigas constava de uma simples mala. Ambrosina fez o cocheiro colocála no banco da frente do carro, e assentouse no de trás com a companheira.
Eram duas e meia da tarde.
Pouco falaram durante a viagem. Ambrosina ia preocupada, e a outra sobressaltada. Todavia, nenhum obstáculo encontraram na agência para obter os respectivos bilhetes de passagem, e às três e meia achavamse instaladas, no mesmo beliche, a bordo de um dos vapores da Companhia Brasileira.
Por este tempo, como vimos Gabriel oferecia dinheiro ao homem do escaler para o largar em terra.
Só às quatro horas já passadas conseguiu meterse em um carro e disparar para Laranjeiras.
Chegou à casa pouco antes das cinco.
Ao não encontrar as portas abertas, sentiu logo uma pancada no coração.
Bateu repetidas vezes, e ninguém respondeu.
Aquela sinistra tarde lhe parecia apressada e impaciente por chamar a noite; e o silêncio, o abandono, as primeiras sombras faziam um doloroso conjunto de tristeza, que mais funda enterrava a agonia no peito do desgraçado.
Gabriel passeou em torno da casa, como um faminto que ronda o celeiro defeso. Afinal, deu com a chave da porta do jardim e penetrou na antecâmara do seu dormitório.
— Cheguei tarde! exclamou ele, atirandose a soluçar numa cadeira. A ingrata fugiu com aquele canalha! (E sentiu uma vontade brutal de estrangular o Melo Rosa). Ah! mas o vapor só sairá às seis e meia, e eu terei tempo de alcançálos!
Dizendo isto, ergueuse, disposto a sair de novo em perseguição dos criminosos.
Foi nessa ocasião que reparou para as quatro cartas, depostas sobre o toucador por Ambrosina.
Uma carta dirigida ao Melo Rosa?... pensou. É singular!
E, tomando a que a ele próprio era dirigida, avidamente a abriu, depois de acender um bico de gás, em vez de abrir as janelas.
Logo com ver as primeiras palavras, um estremecimento nervoso lhe percorreu o corpo.
Tornou a assentarse, e concentrouse na seguinte leitura:
"Gabriel,
"Perdoame. Sou muito menos culpada do que é do teu direito acreditares.
"Enquanto me foi possível consagrarte todo o amor de mulher que em mim havia, deime inteira aos teus braços e à tua boca; fui tua nos teus longos dias de tédio, fui tua nas tuas ligeiras noites de gozo. Hoje, porém, que te amo mais talvez, tudo isso me é vedado por uma sinistra transformação que se apossou do meu ser, abalandoo até na sua própria essência. Este corpo que beijaste com tanto amor de homem, só tem hoje de mulher a forma primitiva, habitao agora a alma de um demônio sexual e lúbrico, a quem desgostam as triviais carícias masculinas.
"Ë minha carne rebelde repugna agora o rijo contacto da musculatura dos hércules, e sorri ao doce e curvilíneo afago da linha dos ganimedes. A estrela que me viu nascer foi Vênus, mas Amor não é para mim um nu e meigo infante de olhos vendados, é uma frívola boneca, cheia de rendas e fitas.
"O Brasil, verde cru e úmido, sufocame; a sociedade em que nasci repeleme e eu rejeito a única que me abre o seio; o homem, qualquer que ele seja, encheme de desprezo por mim e por ele. Todavia, entre esses duros e barbados dominadores da fêmea, eras tu, meu pobre amigo, o menos vaidoso, o menos covarde e o menos egoísta. Mas, nem por isso deixas de ser homem, e eu te fujo, para te não ultrajar com uma ternura que não pertencer ao teu sexo.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.