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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Alguns anos depois, outro prelado determinou que se fizesse não sei que conserto no esquife, e apenas consertado este, foi logo empregado em levar para o último jazigo o zeloso frade que se lembrara de melhorá-lo.

Esta segunda coincidência pôs os religiosos em sobressalto, e não houve mais um só deles que concebesse a idéia da necessidade de se tocar de leve no fatal esquife.

Correu o tempo, e no fim de longos anos, um guardião menos fraco ordenou que se pregassem umas sanefas no esquife.

Os frades, logo que tiveram notícia de ordem de tal natureza foram temerosos repetir as tristes coincidências ao seu guardião. Este, porém, sorriu ouvindo contar o que já sabia, e não insistiu menos no que determinara.

As sanefas tiveram de ser pregadas no esquife, que assim ornado prestou o seu primeiro serviço, recebendo o cadáver ao pobre guardião.

A terceira coincidência impressionou tão fortemente os religiosos capuchos, que nunca mais se consertou e se renovou o esquife, que conserva ainda agora, e já lá vão dezenas de anos, as mesmas sanefas que nele mandara pregar o infeliz guardião.

Creio que vós estais rindo deste prejuízo dos frades capuchos do Rio de Janeiro. Mas, se qualquer de vós fosse frade capucho do convento de S. Antônio hesitaria certamente antes de ordenar que se consertasse o famoso esquife.

Contei-vos uma ligeira história à porta do pátio e vou contar-vos outra um pouco menos curta, e talvez do mesmo gênero, aqui mesmo no pátio.

E por que no pátio?

Porque ali naquele paredão estamos vendo um nicho de pedra e cal, e dentro dele uma imagenzinha de S. Pascal Bailão, que dantes ocupava o altar central da enfermaria e que foi desterrada para fora do convento por motivos muito graves.

A imagem não desperta atenção debaixo do ponto de vista artístico. Tornou-se, porém, famosa no convento, como ides ver.

Pascal Bailão foi um espanhol notável por suas virtudes. Tomou o hábito da ordem seráfica, fez-se enfermeiro do seu convento e enfermeiro quis ser durante toda a sua vida, tornando-se um exemplar de caridade.

Diz a crônica de S. Pascal Bailão que ele foi um escolhido de Deus e que, por Deus iluminado, predizia aos seus irmãos a hora fatal em que deviam morrer, a fim de que eles se preparassem para a jornada dalém-túmulo.

Morreu Pascal Bailão, foi canonizado e a sua imagem teve altares nos conventos dos franciscanos.

Em seu caráter de santo enfermeiro, recebeu S. Pascal Bailão muito bem cabidamente um altar na enfermaria dos frades capuchos do Rio de Janeiro.

Mas, que havia de acontecer? S. Pascal Bailão procedeu no convento de S. Antônio como procedera no seu convento da Espanha.

É tradicional entre os religiosos capuchos de S. Antônio que sempre que tinha de falecer algum frade da comunidade na véspera, por volta da meia-noite, ouviam-se três pancadas rijas, cujo estrondo, partindo do meio da enfermaria, retumbava em todo o convento e enchia de pavor os religiosos.

Ora, no meio da enfermaria estava o altar de S. Pascal Bailão.

Aquele sinal era um presságio infalível e fatal. Vinte e quatro horas depois, havia um frade de menos na comunidade.

Uma vez, soaram as três pancadas à meia-noite, mas nenhum dos religiosos que se achavam no convento estava doente. Impressionados, porém, pelo tremendo anúncio, todos se confessaram, e especialmente os velhos se encomendaram a Deus.

O dia seguinte correu sem novidade. A noite chegou, e nem um só dos religiosos se sentia doente. Ainda até as 11 horas nada ocorreu. Alguns minutos, porém, antes da meia-noite, ouviu-se bater à portaria, e daí a pouco, viu-se entrar no claustro o cadáver de um frade que estava com licença em uma vila próxima e que falecera de repente, naquele dia.

Era o presságio terrível que se verificava.

Naturalmente os frades andavam temerosos, e de cada vez que as três pancadas se ouviam, derramava-se terror geral no convento.

S. Pascal Bailão trazia em susto constante os religiosos capuchos do Rio de Janeiro.

Sendo em outubro de 1796 eleito provincial frei Joaquim de Jesus Maria Brados, intentou este, de acordo com o seu secretário, o padre-mestre frei João Capistrano de S. Bento, mudar a imagem de S. Pascal Bailão para outro lugar, na esperança de ver cessar a continuação de um sinal que punha sempre o convento em alarma, e para esse fim mandou construir o nicho de pedra que estamos vendo e que fica em frente do jardim da enfermaria.

Na tarde de um dos primeiros dias do mês de maio de 1799, teve lugar a trasladação da imagem, ato que foi celebrado com toda a pompa e presidido pelo provincial e pelo secretário, que conduziram em seus braços a imagem do santo.

E acabava apenas a solenidade, quando o provincial sentiu-se acometido de violenta febre, e imediatamente depois, o mesmo aconteceu ao secretário.

Não houve remédio que triunfasse da moléstia que a ambos atacara.

O provincial faleceu no dia seis de maio daquele mesmo ano.

(continua...)

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