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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

 - Palavra! 

 De arrogante que estava poucos momentos antes, tornara-se o Afonso novamente submisso, e tímido suplicava a carícia de que ameaçara a menina, prestando-se humilde a todos os seus caprichos e negaças. 

 Fechou ele os olhos, e Berta cerrando-lhe por cautela as pálpebras com a palma da mão esquerda, acenou um beijo, que derramou-lhe nas faces tépida fragrância. Mas antes que os lábios tocassem a macia penugem, caiu-lhe sobre a orelha um piparote, que por ser de unha rosada e faceira não deixou de doer, tanto como dói um espinho de rosa. 

 Quando Afonso, arrebatado ao enlevo da carícia que já libava no hálito perfumado, deu acordo de si, tinha-lhe fugido a menina dentre os braços, e uma risada fresca e límpida trinava ali perto, entre as moitas. 

 Este logro abateu o gênio folgazão do moço. Em vez de correr após a menina e desforrar-se da peça que lhe acabava de pregar, deixou-se ficar tristonho e aborrecido. Era o amor que assim esfumava com laivos de melancolia os brincos e travessuras da adolescência. 

 Vendo o camarada ressentido, não se conteve Berta que o ficara espiando, partida entre o prazer da pirraça e o susto da desforra com que ela contava. 

 Aproximou-se compadecida; e com uma graciosa inflexão da fronte docemente enrubescida e uma gentil expressão de ternura e bondade, pousou os lábios na face do mancebo. 

 - Está; não fique zangado! 

 Estremeceu Afonso. A fronte reclinando com o enlevo da carícia repousou lânguida sobre a formosa cabeça da menina, cujos cabelos anelados amaciava com a mão trêmula. Assim o cedro alterneiro, se o cortam pela raiz, entrelaça as ramas da copa frondosa às grinaldas do cipó florido. 

 Quanto a Berta, conchegada ao seio do mancebo, ria-se maliciosamente para disfarçar o rubor; e lançava de esguelha um olhar brejeiro ao semblante do camarada. 

 De chofre repeliram-se um ao outro. 

 Miguel estava em face deles. 

 

XV 

Confissão 

 

Miguel estava pálido, que assustava; os lábios trêmulos não podiam pronunciar uma palavra. Conhecia-se o esforço que ele empregava para conter o ímpeto de sua cólera. 

 Afonso ficara confuso; e com os olhos vagos e o gesto constrangido, cogitava um pretexto para retirar-se; mas nem um lhe acudia. 

Foi Berta quem primeiro recobrou-se do sossôbro. 

 - Que anda fazendo, Miguel? 

 - Vim procurá-la. Em casa estão todos com cuidado. 

 - Não tenha susto que eu não me perco! replicou a menina sorrindo. 

 - Você não vem, Berta? perguntou Afonso. 

 - O senhor não veio só? Pode voltar do mesmo modo. 

 Aproveitou Afonso a despedida para afastar-se desse lugar onde em verdade não estava a gosto. Ainda indeciso, parando de instante em instante, à espera dos outros, encaminhou-se para a casa. 

 Berta, ficando só com Miguel, contemplava o semblante abatido do mancebo, e condoia-se da mágoa que tinha involuntariamente causado. 

 - Que tem você, Miguel? 

 - Ainda pergunta, Inhá? 

 - É porque eu quero bem a Afonso? 

 - Não carece dizer; eu já sabia. 

 - Mas eu também lhe quero! disse Berta com encantadora singeleza. 

 - Como a ele? perguntou vivamente Miguel. 

 Corou Inhá, lembrando-se do beijo dado na face de Afonso, o que ela nunca se animaria a fazer com o filho de nhá Tudinha, apesar de ser este seu colaço. 

 Tornou Miguel com um modo sentido e grave: 

 - Não se pode querer bem assim, Inhá, senhão a uma pessoa: aquela que se escolheu para marido. 

 Berta soltou uma risada zombeteira: 

 - Como Linda quer a você, não é? 

 - Tantas vezes que lhe tenho pedido para não repetir esse gracejo! Mas como sabe que ele mortifica-me, por isso mesmo não o esquece. 

(continua...)

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