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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

E a menina sorria no seu plácido sono enleando-se talvez nalgum sonho gracioso, nalgum dos sonhos azuis que Deus esparge como folhas de rosas sobre o leito das virgens. 

Era o anjo em face do demônio; era a mulher em face da serpente; a virtude em face do vício. 

O italiano fez um esforço supremo, e passando a mão pelos olhos como para arrancar uma visão importuna, encaminhou-se a um bufete e acendeu uma vela de cera cor-de-rosa. O aposento, até então esclarecido apenas por uma lamparina colocada sobre uma cantoneira, iluminou-se; e a imagem graciosa de Cecília apareceu cercada de uma auréola. 

Sentindo a impressão da luz sobre os olhos, a menina fez um movimento, e voltando um pouco o rosto para o lado oposto continuou o sono, que nem fora interrompido. 

Loredano passou entre o leito e a parede, e pôde então admirá-la em toda a sua beleza; não se lembrava de nada mais, esquecera o mundo e seu tesouro: nem pensava no rapto que ia praticar. 

A rolinha que dormia sobre a cômoda no seu ninho de algodão ergueu-se e agitou as asas; o italiano, despertado por este rumor, conheceu que já era tarde e que não tinha tempo a perder. 

IV 

NA TREVA 

 

Alguns esclarecimentos são necessários aos acontecimentos que acabavam de passar. 

Quando Loredano viu-se obrigado pela ameaça de Álvaro a partir para o Rio de Janeiro, ficou sucumbido; mas, depois de alguns momentos, um sorriso diabólico tinha enrugado os seus lábios. 

Este sorriso era uma idéia infame que luzira no seu espírito como a flama desses fogos perdidos que brilham no seio das trevas em noites de grande calma. 

O italiano lembrou-se que no momento em que todos o supunham em viagem, podia preparar a execução do seu plano que ele realizaria naquela mesma noite. 

Na conversa que tivera com Rui Soeiro transmitiu-lhe as suas instruções, breves, simples e concisas; consistiam em livrarem-se dos homens que podiam pôr embaraços à sua empresa. 

Para isso os seus cúmplices receberam ordem de quando se recolhessem para dormir, colocarem-se ao lado de cada um dos homens da banda fiéis a D. Antônio de Mariz. 

Naquele tempo e naqueles lugares não era possível que os aventureiros tivessem cada um o seu cubículo; poucos gozavam desse privilégio, e assim mesmo eram obrigados a partilhar o seu aposento com um companheiro: os outros dormiam na vasta alpendrada que ocupava quase toda essa parte do edifício. 

Rui Soeiro tinha, conforme as instruções de Loredano, arranjado as coisas de tal modo que naquele momento cada um dos aventureiros dedicados a D. Antônio de Mariz tinha a seu lado um homem que parecia adormecido, e que só esperava ouvir pronunciar a senha convencionada para enterrar o seu punhal na garganta do seu companheiro. 

Ao mesmo tempo havia pelos cantos da casa grandes molhos de palha seca colocados junto das portas ou metidos pela beirada do telhado, e que só esperavam uma faisca para atear o incêndio em todo o edifício. 

Rui Soeiro, com uma sagacidade e uma prudência dignas de seu chefe, dispusera tudo isto; parte durante o dia, e parte nas horas mortas da noite em que tudo estava recolhido. 

Não se esqueceu da recomendação especial de Loredano, e ofereceu-se voluntariamente a Aires Gomes para fazer a guarda noturna com um dos seus companheiros, visto recear-se ataque do inimigo; o digno escudeiro que o conhecia como um dos mais valentes da banda, caiu no laço e aceitou o oferecimento. 

Senhor do campo, o aventureiro pôde então acabar livremente seus preparativos, e para mais segurança arranjou traça de ver-se livre do escudeiro, que podia de um momento para outro vir incomodá-lo. 

Aires Gomes em companhia de seu velho amigo mestre Nunes esvaziava uma botelha de vinho de Valverde, que eles bebiam lentamente, trago a trago, para assim disfarçarem a módica porção do liquido destinado a umedecer as goelas de dois formidáveis bebedores. 

Mestre Nunes aplicou voluptuosamente os lábios à borda do canjirão, tomou uma vez de vinho, e dando um ligeiro estalinho com a língua no céu da boca, repimpou-se na tripeça em que estava sentado, cruzando as mãos sobre o seu ventre proeminente com uma beatitude celeste. 

— Ora estou desde que cheguei para perguntar-vos uma coisa, amigo Aires; e sempre a passar. 

— Não a deixeis passar agora, Nunes. Aqui me tendes para responder-vos 

— Dizei-me cá, quem é um tal que acompanhava D. Diogo, e a quem dais um diabo de nome que não é português? 

— Ah! quereis falar de Loredano? Um tunante? 

— Conheceis esse homem, Aires?

— Por Deus! se ele é dos nossos! 

— Quando pergunto se o conheceis, quero dizer se sabeis donde veio, quem era e o que fazia? 

— À fé que não! Apareceu-nos aqui um dia a pedir hospitalidade; e depois como saísse um homem, ficou em lagar dele. 

(continua...)

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