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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Eu penso que amo...

– Sim... compreendo... desconfias que amas.

– Mas olha, d. Mariquinhas, eu não amei por minha vontade... foi sem sentir... – Sim... sucede a todas nós isso mesmo.

– Foi pouco a pouco que esse sentimento entrou no meu coração... eu não desconfiava disso, aliás saberia combatê-lo...

– Debalde!

– Quando me veio ao pensamento que eu poderia estar amando... quando caí em mim, oh!... tudo foi em vão... era já muito tarde.

– Tal qual sucedeu comigo.

– Chorei muito, d. Mariquinhas, chorei muito... uma noite inteira... e tu?

– Eu?

– Sim; tu choraste também muito?

– Eu não, d. Celina.

– Mas por quê?

– Por duas razões; primeira, porque eu desejava amar.

– É possível?!

– Eu fazia uma idéia muito engraçada do amor; há porém muitas moças que pensam como eu. Pensava que o amor era para uma moça o mesmo que a boneca para uma menina, um passatempo inocente, um brinquedo que se deixa quando nos aborrece, e nada mais; por isso eu desejava amar.

– Que louca!

– Depois, eu não devia também chorar; não tinha de quê; o homem que eu amei era e é digno de mim.

– Certamente não foi por pensar o contrário disso que eu chorei, respondeu Celina corando.

– Então por que foi?

– Também não sei. Ficava só neste quarto pensando... fantasiando tantas coisas... tantas coisas... depois ia, sem saber por que, tornando-me triste... triste... até que desatava a chorar.

– E depois?

– Depois que chorava, eu me sentia um pouco mais aliviada de uma dor que não se pode dizer como é; continuava a pensar... a fantasiar outra vez... de novo me entristecia, e de novo chorava.

– Pobre d. Celina!...

– Olha; e nem uma só vez me tenho rido...

– Mas essa tristeza?

– É a um tempo muito amarga e muito doce; se me dessem a escolher uma festa, um baile, um belo passeio, uma noite de teatro, ou uma hora de solidão, de isolamento com a minha querida tristeza, eu te juro, d. Mariquinhas, que preferiria essa hora de pranto a essas noites de prazer.

– Eu compreendo...

– Oh! pensar nele, exclamou Celina, que se ia exaltando pouco a pouco; pensar nele!... ter sua imagem dentro do coração, e ao mesmo tempo diante dos olhos!... estar ele ausente, e eu vê-lo ao meu lado... ouvir a sua voz tão doce! tão meiga! tão melancólica! sentir o toque de sua mão que me causa um abalo indizível; o roçar de sua roupa com a minha em uma curta passagem, que me faz estremecer vivamente... vê-lo andando garboso e engraçado, ouvi-lo a cantar um hino de amor tão terno... não existir nada disso, e estarmos vendo e ouvindo tudo isso... oh! é muito! faz com que instintivamente ergamos mãos ao céu, e clamemos: “bendito seja Deus que nos deu a imaginação, para na ausência vermos e ouvirmos assim aquele a quem tanto amamos!...” – Tens razão, d. Celina!

– Oh! é sublime! prosseguiu a moça; isso é tão belo, tão encantador, tão mágico, que eu fico às vezes uma hora inteira, mais de uma hora, em contemplação, enlevada nessas delícias, nessas imagens, entre o céu e a terra, porque esse estar assim, esse gozo tem por força alguma coisa de celeste. E por fim, d. Mariquinhas, sem querer, sem sentir, no meio desse sonho de vigília, sem sofrer dor alguma, não sei por que mesmo as lágrimas caem em rios de meus olhos...

– E choras?

– Pranto bem doce! é bom quando se chora assim!...

– Meu Deus!

– Tu não choras nunca assim, d. Mariquinhas?

– Nunca.

– Infeliz! disse a “Bela Órfã” olhando com piedade para a amiga que a escutava admirada.

– Eu infeliz? por não chorar?

– Oh! sim!... porque há certas lágrimas que dão um prazer que está acima de todos os prazeres!

– Então tu és bem ditosa?

– Não.

– Como, pois, esse prazer?

– Ah! não me sacia nunca.

– E então...

– Eu sou como aquele que está devorado por ardente febre: com fervor leva aos lábios um copo d’água... esgota-o... e de novo mata-o a sede. Amar é também uma febre... não é?

– Eu já não digo palavra, respondeu Mariquinhas; estás mais adiantada do que eu.

– É porque tu não amas.

– Mas nota que tenho observado muito.

– Engano! amor não se observa... sente-se!

– Todavia tu és contraditória, d. Celina.

– Como?

– Começaste queixando-te de tuas lágrimas, e acabaste abençoando-as.

– É porque nem todas são da mesma natureza. A imaginação, que não é nossa escrava, a imaginação, livre, independente como as aves da floresta virgem, se às vezes me oferece um quadro de esperança, de amor e de saudade, outras vezes, d. Mariquinhas, cria fantasmas que atemorizam, fantasmas horríveis que bradam a meus ouvidos... que entoam o hino infernal, o hino do desespero resumido em uma palavra fatal...

– Qual?

(continua...)

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