Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Está dito, meu padrinho: foi uma queda abençoada.
Meia hora depois Carlos, deixando seu padrinho de vestidos mudados, com um lenço limpo na cabeça, e sossegadamente deitado, despediu-se dele e ia descer:
— Carlos, disse ainda o moço, dize à família que mora embaixo que fico estes cinco dias em casa; e, por conseqüência, que continue a mandar-me almoço, jantar e ceia; principiando pela ceia, ouviste?...
— Sim, meu padrinho!... respondeu Carlos descendo rapidamente a escada.
— Grata criança!... disse o moço, quando o viu partir.
No entanto, o menino, depois de cumprir a recomendação de seu padrinho, pôs a cabeça fora da rótula, examinou se alguém havia de espreita e, vendo a rua solitária, saiu, e marchou precipitadamente, olhando muitas vezes para trás, como era de seu costume.
A dedicação dessa criança ao moço loiro deveria ter por origem um sentimento bem nobre!
Às dez horas da noite Carlos entrava pela porta de uma elegante casa, dizendo consigo mesmo:
— Esta noite não durmo sem ouvir sermão; também nunca me recolhi tão tarde.
E ao mesmo tempo o moço loiro sentava-se à mesa de seu pequeno quarto e se dispunha a cear o que acabavam de trazer-lhe.
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Ao amanhecer do dia seguinte a velha Sara despertou e, lembrando-se do moço ferido... sem poder conter-se de si mesma, passou a mão por baixo de seu travesseiro, e surpreendida tirou daí uma carteira...
Imediatamente gritou por Miguel, que se levantou espantado; mas para logo seu espanto se tornou em vivo prazer; pois viu que a carteira, se não continha soma capaz de enriquecer uma família, lhes trazia meios de melhorar muito sua posição.
Raquel, a quem foi relatado o sonho do moço e o aparecimento da carteira, compreendeu facilmente qual tinha sido a mão de gênio benfazejo.
XXIV
Um mês
Depois de acontecimentos que muito sucintamente acabamos de relatar, um mês se passou por tal modo infecundo e árido, que justo parece passarmos também de um rápido vôo sobre ele. Hugo de Mendonça deixou para sempre a sua bela casinha de Niterói. Ema havia tomado tal horror da vista daquele mar tão traidor com suas mansinhas e risi-bulhentas ondas, que lhe esteve para arrancar do coração a única, talvez a única corrente que ainda a prende ao mundo; Hugo mesmo lembrava-se todos os dias com tal horror da fatal noite de tempestade, que sua mudança para a corte foi determinada e prontamente executada, apesar do muito que Honorina se aprazia da meia solidão, do meio sossego que gozava naquela pequena e graciosa casa, abrigada por trás de sombrias árvores; e pode ser, das lembranças já doces que esse mesmo mar insano, que essas noites de claro luar lhe derramavam no espírito.
E, como se a interessante moça houvesse adquirido influência tão forte e decidida sobre o ânimo de Lucrécia, e impressão tão agradável nele tivesse produzido, que já não fosse possível a esta fruir com prazer a vida longe da filha de Hugo de Mendonça, a linda viúva abandonou também para logo a jovem cidade, que talvez, para alguns, semelhou, durante alguns dias, jardim desamado, donde se há arrancado para transplantar em outro suas flores mais mimosas.
Honorina, portanto, tinha como que duas existências ligadas à sua, como que duas sombras que acompanhavam seu corpo: a viúva e o moço loiro.
Mercê de vosso privilégio de autor, temos já entrado na alma de ambas essas personagens, e ter-se-á compreendido que tão benigno deverá ser o influxo de um, como maligno o da outra.
À primeira vista parecerá um contra-senso que tenha de partir o bem daquele que se esconde nas trevas, e o mal daquela que se apresenta com a face descoberta, sendo, tal qual é, a virtude sempre límpida e transparente, e vezes mil, ou antes de ordinário, a maldade misteriosa e encapotada; mas um momento de reflexão fará lembrar que outra é a capa e máscara da maldade, que não em todos os casos a escuridão da noite; outra mais negra ainda e ainda mais impenetrável que esta, é a hipocrisia; é o sossego do rosto, mentido às convulsões do espírito; o doce sorrir dos lábios por cima do amargor e do veneno do coração; o olhar meigo e terno dos olhos adiante da vesgueira enfezada do ânimo.
É possível que o futuro proceder das duas personagens, em quem por último tocamos, venha, ainda uma vez, demonstrar a veracidade dessa já velha observação.
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E um mês se passou: um mês de suspiro para uma amante saudosa; de acerba melancolia para uma mártir de amor; de projetos e combinações sinistras para uma mulher falsária.
Iremos, pois, considerar três mulheres: Honorina, Raquel e Lucrécia.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.