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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

— É filho do venerando Zé Maria.

— Quem é esse Zé Maria? — Não me lembro bem.

Não se atemorizou Bogoloff em visitar o Estado governado por estadista tão conhecido. Partiu o russo para aquela parte do Brasil, a bordo de um vapor do Lloyd, em fins de ano. De há muito o governo queria “salvar” essa companhia e o remédio já tinha sido achado por Xandu — o seu presidente era um general.

O paquete estava com a partida marcada para 26 de dezembro; como o governo, porém, queria número na Câmara e temia que muitos deputados fugissem nele para os Estados, adiou-a para o dia 30. Bogoloff embarcou ao meio-dia, pois os anúncios diziam que o navio levantava ferros às quatro horas.

Havia congressistas passageiros e, tendo as sessões da Câmara se prolongado até tarde, o vapor só deixou as amarras às nove horas da noite.

Foi, portanto, vendo a cidade iluminada, a se mirar nas águas negras da baia, que o russo atravessou a barra em demanda ao Estado das Palmeiras.

Navegava num mar calmo sob um céu negro em que as estrelas faiscavam como diamantes nas trevas.

A linha da costa era de longe em longe marcada por fracas luzernas à altura das águas. As águas estavam negras e o mar tinha de noite menos atração e aparentava mais segurança. A luz manifestava toda a sua fascinação e esclarece os perigos e as suas perfídias.

De quando em quando, o jorro luminoso do farol da Rasa cobria um instante o navio. Não havia quase fosforescência e as hélices escachoavam ritmicamente.

Bogoloff, no salão, travara conversa com um tenente que, com uma juvenil atitude de superioridade, não o amedrontava. O russo, habituado a tudo isso, vencera pouco a pouco as desdenhosas respostas do rapaz. Ao fim de algum tempo, ele mesmo perguntou:

— Para onde o senhor vai?

— Para Tatui.

— Vou também. Vou tratar de minha eleição a deputado.

Admirou-se o russo que aquele menino, simples tenente, já quisesse ser deputado e julgou-se obrigado a explicar.

— Vou em comissão do meu ministro.

— Conheço muito o seu ministro. O Xandu é muito operoso. Já mesmo fizlhe um elogio. Conhece Contreiras?

— Não.

— Dou-me muito com ele; é meu amigo.

— Grande político, não é?

— Grande! Fui eu mesmo quem lhe levantou a candidatura. Dei o tombo no Macieira. Contreiras, meu caro senhor, é um Marco Aurélio. Nunca aceitou gratificações de fornecedores.

Bogoloff afastou-se, pensando que esse moço não sabia bem quem era Marco Aurélio. Pois um homem é Marco Aurélio só porque não furtou dez tostões? Então ele deixava de lado a sede de perfeição moral do imperador romano, a sua profunda piedade e a sua ânsia de bondade e fraternidade, para crismar de Marco Aurélio um coronel jactancioso aí qualquer? Era curioso um tal fato e Bogoloff dirigiuse compungido para a coberta do navio que a noite envolvia e o mar suportava.

Havia poucos passageiros na tolda e, entre eles, não se estabelecera conversas. Todos se tinham mergulhado no insondável mistério daquela noite de trevas sobre o oceano imenso.

De repente, um grito quebrou aquele augusto silêncio:

— Meu binóculo! Ó comandante! Pare! Pare!

Às perguntas de explicação, ele se limitava a responder:

— Onde está o comandante?

Vendo o capitão, entre o tom de pedido e o de ordem, ele disse:

— “Seu” comandante, é preciso voltarmos ao Rio. Esqueci-me do meu binóculo.

Fez-lhe ver o comandante que isso era impossível e tal coisa iria causar graves prejuízos à companhia e aos passageiros. O homem enfureceu-se e gritou:

— Sabe com quem está falando?



(continua...)

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