Por Aluísio Azevedo (1895)
- Vou; sinto-me sufocado! Preciso de um estimulante. Conserva tu em perfeito juízo a tuacabeça e deixa-me beber à vontade.
Encheu duas taças e, erguendo uma delas, disse ao amigo:
- Ao novo horizonte que se rasga defronte de nossos olhos! Ao amor e à fortuna!
Coruja levou a sua taça aos lábios, bebericou uma gota de vinho e afastou-se logo para ir à casa de D. Margarida; enquanto o outro, esticando-se melhor na cadeira em que estava e soprando com volúpia o fumo do seu charuto, murmurava de si para si:
– Amanhã a estas horas tenho à minha disposição uma mulher encantadora e um dote de cem contos de réis! Ah! geração de imbecis, agora é que vais saber quem é Teobaldo Henrique de Albuquerque!
XXII
Às nove horas da noite Teobaldo partira para Botafogo dentro de um cupê, em cuja boléia o Coruja e mais o Sabino empertigavam-se denodadamente como se foram legítimos cocheiros.
Era para ver o grave professor enfronhado naquela libré já russa, de botões enverdecidos de azinhavre, e todo austero, inalterável, possuído da mesma gravidade com que se assentava ao lado da noiva ou recolhia na aula as lições dos seus rapazes.
Não se lhe desfranzira o sobrolho, nem lhe fugira dos lábios a triste rispidez favorita, como também os seus pequeninos olhos mal abertos conservavam aquela dura expressão antipática e sem graça, que a todos desagradava e repelia.
Pelas aproximações da casa do comendador o carro seguiu mais lentamente e abordou-a pelos fundos, sem se lhe ouvir o rodar, porque a rua era de areia.
A certa altura, Teobaldo segredou uma palavra ao amigo, saltou em terra e dirigiu-se para o portão traseiro da chácara; aí escondeu-se atrás de uma árvore que havia e assoviou três vezes. Só no fim de alguns minutos um leve rumor de saias fê-lo compreender que alguém se aproximava.
- Teobaldo... disse uma voz medrosa e tímida.
- Estás pronta?
E ele viu desenhar-se na escadaria de pedra, frouxamente iluminado pelas estrelas, o gracioso vulto de Branca.
Ela desceu trêmula e confusa, apoiando-se ao corrimão engrinaldado de verdura, a olhar espavorida para todos os lados, até chegar embaixo.
- Vem, disse Teobaldo a meia voz.
- Tenho medo... balbuciou a menina, encostando-se ao pilar da escada, sem ânimo de dar um passo em frente.
O rapaz abriu cautelosamente o portão e foi ter com ela.
- Não tenhas receio, minha Branca, segredou-lhe, passando-lhe um braço na cintura. - Lembra-te de que, se não aproveitarmos esta ocasião, nunca mais seremos um do outro. Dei já todas as providencias: uma família espera por ti e ao raiar do dia estaremos casados. Vem! Nada de hesitações, vem, antes que nos surpreendam aqui.
- Vê como estou gelada... balbuciou ela, pousando a sua mãozinha fria sobre o rosto do namorado. O coração parece que me quer saltar de dentro do peito... Oh! não pensei que me custaria tanto a dar este passo...
Teobaldo puxou-a brandamente até à rua e, com um sinal, fez aproximar-se o carro, para onde ele a levou nos braços.
- Deus me proteja!... suspirou Branca, deixando--se cair sobre as almofadas, como se perdera os sentidos.
- Toca! ordenou o raptor ao Coruja.
O carro disparou. Então a menina deixou pender a cabeça sobre o colo do amante e abriu a soluçar.
* * * D. Margarida e a filha esperavam por eles.
Não foi, porém, sem dificuldade que o Coruja logrou capacitar a velha de que não devia fugir a semelhante obséquio, e é de crer que ela cedesse mais por espírito de curiosidade do que pelo simples gosto de servir ao futuro genro: aquilo, afinal, era um escândalo, e a mãe de Inez dava o cavaquinho pelos escândalos.
Branca chegou lá às dez e meia da noite, e D. Margarida, ao dar com o Coruja muito sério e disfarçado em cocheiro, exclamou benzendo-se
- Credo, seu Miranda! Que trajos são esses, homem de Deus?
Teobaldo despediu o carro, fez servir uma ceia que mandara trazer do hotel e ordenou ao Sabino que tornasse a Botafogo e ficasse até pela madrugada a rondar a casa do comendador, para ver se haveria alguma novidade.
Puseram-se todos à mesa e, a despeito da crescente aflição da foragida, riram e conversaram, sem cuidar nas horas que fugiam, porque estavam mais que dispostos a passar a noite inteira na palestra e na bisca de sete.
- Vê!... disse Margarida, dirigindo-se a André e apontando para Branca e Teobaldo, que alheados conversavam juntos, quando a gente quer as coisas deveras faz como aqueles...
O Coruja remexeu-se ao lado de Inez, e a velha acrescentou:
- E note-se que estes para casar topavam outras dificuldades que já o senhor não encontra para casar com minha filha!...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.