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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

Havia com efeito no ar daquele pobre adolescente prisioneiro de um claustro, alguma cousa que impressionava a quem o observasse de perto. Os seus grandes olhos azuis, muito escuros, quase negros, tinham uma híbrida expressão feita de inocência e perspicácia; eram vivos como os da águia, mas transparentes e doces como os de uma criança, e tinham, ao mesmo tempo que deixavam transluzir toda a virgindade daquela alma imaculada, súbitos clarões, Inteligentes, que denunciavam um espírito agudo e forte. Na suavidade das suas faces de moço, havia a sombra das duras penitências e das grandes vigílias místicas sobre as páginas do breviário, ou defronte do altar da Virgem Santíssima, mas havia também uma juvenil frescura de flor, dessas misteriosas e pálidas, que só à noite desabrocham e recendem. A sua boca imberbe era um conjunto fascinador de graça e de tristeza, seus lábios, um tanto cheios e sangüíneos, pareciam todavia talhados mais para os beijos de amor do que para o frouxo balbuciar das orações. Seus cabelos negros, crescidos à nazarena, como então usavam os religiosos de França, derramavam-se-lhe em fartos anéis sobre a brancura do pescoço e caíam-lhe em trêmulas madeixas de lado a lado do rosto.

Devia ter sido um rapaz muito forte, se não fora a enervadora clausura a que o condenara seu infeliz destino. Era de natural esbelto e airoso, tinha os dentes brancos e rijos, o queixo enérgico, o nariz feito de uma só linha, a fronte alta e severa.

As macerações dos jejuns e das ásperas disciplinas não conseguiram desfibrar-lhe de todo a sólida compleição com que a natureza o dotara. Apesar de tudo, era ainda, nos seus cândidos vinte anos, uma garbosa e gentil figura, que havia fatalmente de impressionar às damas sensuais da corte de Luís XV.

Efetivamente assim foi.

Conduzido até ao púlpito por seu pai espiritual, Ângelo, mal se mostrou e percorreu com os olhos inexperientes o auditório que o aguardava ansioso, um súbito rumor de simpatia percorreu toda a igreja. As mulheres, instaladas nas tribunas, alongaram o pescoço para o ver melhor. O rei sorriu interessado, e logo toda a sua corte sorriu também.

A capela, completamente cheia, palpitava de curiosidade. Paris elegante estava todo ali, entre aquelas bonitas paredes de mármore cor-de-rosa, guarnecida de florões e filetes de ouro rebrilhante. Sentia-se o tilintar dos pingentes de cristal dos imensos lustres de mil velas, e sentia-se por entre o farfalhar dos veludos e das sedas, o fremir dos leques de tartaruga e madrepérola, suavemente agitados contra os adereços preciosos. O cheiro sagrado da mirra e do incenso confundia-se no espaço com os voluptuosos perfumes do toucador.

Ângelo, imóvel, de pé, mãos pousadas no retordo do púlpito, olhos postos no alto e lábios entreabertos, fazia a sua oração preparadora, inteiramente alheio a toda aquela luzida e refulgente corte que o cercava.

Compreendia-se que sua alma, arrebatada no enlevo da prece, vagava naquele instante pelos infinitos páramos do céu.

Toda a sua fé, toda a sinceridade das suas crenças e toda a pureza do seu corpo e do seu espírito, vieram-lhe ao semblante naquele momento de profundo êxtase.

Parecia um arcanjo em dulcíssimo idílio com a Divindade. Dir-se-ia que ele, de um instante para outro, ia desprender-se da terra e partir lentamente para Deus, como a própria suplica que lhe agitava as rosas da boca e se evaporava como um perfume.

Quando as suas primeiras palavras saíram-lhe do coração, num doce murmúrio de voz angélica, houve em todas aquelas pobres criaturas, estafadas pelo vício e pela libertinagem, uma inesperada comoção que lhes umedecia os olhos.

E ele, sempre arrebatado no vôo do seu enlevo religioso, continuava a falar, como se estivesse sonhando, cercado de uma nuvem de anjos.

A sua voz, de cristal e ouro, virgem e sonora, enchia o recinto, produzindo naquele extático e maravilhado auditório o efeito de uma estranha música desconhecida, que baixasse dos céus para acordar-lhe, no corrompido e morto coração, uma idéia generosa e consoladora.

Foi geral e profunda a comoção. As mulheres arfavam, sem despregar os olhos da encantadora figura de Ângelo. O rei deixara pender a cabeça sobre o peito e cismava, possuído de uma expressão de bondade, que até aí ninguém lhe tinha jamais visto. A condessa de Pampadour, debruçada no seu genuflexório de veludo carmesim, tinha a fisionomia paralisada e parecia orar contritamente.

Entretanto, Ângelo falava sempre, e sempre alheio ao que o cercava. Suas frases vinham-lhe aos lábios naturalmente, sem que houvesse nele a mais ligeira preocupação de agradar ao público ou armar ao efeito. Era nada mais do que a confissão do seu entranhado amor pelo mártir do Gólgota, um descrever de dores cruciantes, que ele sofria dizendo-as ali, como se naquela ocasião as experimentasse possuído de uma revolta de arcanjo fiel e cheio de piedoso entusiasmo por esse Deus humilde, que abandonou o seu trono celeste para vir padecer, na terra ingrata, como o derradeiro dos homens.

Falava de Jesus como se falasse de um desgraçado companheiro, a quem arrancaram de seus braços para levá-lo de rastos por essas ruas, cuspindo-lhe sobre as feridas, rasgando-lhe as carnes nas pedras do caminho, e matando-o afinal num poste infame, onde se justiçaram os ladrões e os assassinos.

(continua...)

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