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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

O coronel já não ria, sacudia os ombros, e ao ver passar o redator­chefe do jornal, o Luís de Castro, torcia o nariz com repugnância.

Entretanto, pouco depois, Ana foi pedida por um empregado público, e o pai deu­a de bom grado.

Moscoso, por portas travessas, fez o que pôde para desmanchar o casamento. Serviu­se da carta anônima, não trepidou em difamar a filha do coronel, atribuindo ao próprio pai dela a autoria da sua desonra; mas nada disso produziu efeito, e o invejoso teve de roer na obscuridade de seu ódio mais essa decepção.

Ah! o que o havia de vingar eram as mofinas! para isso estava ali o Jornal do Comércio!

E Moscoso meneava a cabeça, com a calma e a resignação de quem tem toda a confiança na sua paciência e plena certeza de alcançar os seus fins.

— Havia de vingar­se, olé! repetia consigo de vez em quando. Seu tempo de gozo havia de chegar!...

Por essa época sucedeu que o dono da casa comercial em que estava ele empregado, fosse acometido mais fortemente pela moléstia que padecia.

Moscoso tornou­se desvelado e incansável com o patrão, a quem passou a servir de enfermeiro. Perdia noites, andava na ponta dos pés, só falava à meia voz e vivia amarelo, feio e taciturno.

Assim se passaram cinco meses, sem uma queixa, sem uma exigência. Afinal o patrão uma noite o chamou ao quarto e, mostrando­lhe uma rapariga, que criara e com quem vivia, disse­lhe com as lágrimas nos olhos:

— Moscoso! eu sou um homem rico, tenho esta pequena que eduquei como filha, sinto que vou morrer e não deixo família para herdar. Mortifica­me a idéia de ficar aí tanto dinheiro, que representa o meu trabalho da vida inteira exposto a cair na mão de algum vadio que o deite à rua, como quem não sabe quanto me custou a ganhá­lo, e acabe por atirar na miséria a esta pobre de Cristo!

Moscoso abriu a chorar, e entre soluços pediu ao patrão que se calasse por amor de Deus, e não se estivesse a mortificar com semelhantes idéias.

Mas o homem não o atendeu e, segurando uma das mãos do caixeiro e outra da pupila, continuou com a voz sufocada:

— Deixa­te disso, Luís! sei que morro e não quero, pela primeira vez em minha vida, largar os meus negócios desamparados... Não me posso ir, sem cuidar do futuro desta criatura; eu já lhe toquei a teu respeito, ela concordou; de tua parte espero que não me hás de deixar mal... Minha pupila, coitada! não é nenhuma beleza, nem é nenhuma senhora de salão, mas tem boa cabeça e um coração que é uma jóia. Fica­te com ela, toma­a por esposa. Só desejo que a trates sempre como eu sempre a tratei, e que sustentes o nome e o crédito desta casa, que fiz com a minha atividade e com a minha perseverança. Tu és econômico e sensato, virás a dar um bom marido, e...

O enfermo, não pôde continuar, e com um gesto pediu o remédio.

Moscoso serviu­lhe, recomendando que se calasse.

Havia tempo, que diabo! para tratarem daquilo. Ficasse o patrão descansado; ele cumpriria as suas últimas ordens, com o mesmo zelo com que cumpriu as primeiras recebidas naquela casa!

O patrão fez um gesto afirmativo e puxou para o seu peito descarnado as cabeças dos seus dois herdeiros, que se vergaram condescendentemente, em uma posição forçada, cada qual uma careta mais feia.

A pequena chorava, e o Moscoso fazia­lhe sinais com os olhos para que sustivesse o pranto defronte do moribundo.

O médico chegou depois à hora do costume, demorou­se o tempo que a formalidade exigia, e saiu, dando de ombros.

O doente expirou no dia seguinte.

Meses depois, casava­se Moscoso com a pupila do defunto patrão. Chamava­se Genoveva e era uma raparigaça de seus vinte e poucos anos, muito tola de uma gordura desengraçada. Parecia toda feita de almofadas; as carnes da cara tremiam­lhe quando ela andava, os olhos tinham uns tons amarelados e mortos; o cabelo vivia­lhe pregado ao casco da cabeça com suor, por falta de asseio. Era de uma brancura de sebo velho, falava muito descansado e com um hálito azedo; as suas mãos papudas e umidamente macias, davam em quem as tocasse a sensação repulsiva que se experimentava ao pegar na barriga de uma lagartixa.

Moscoso apossou­se sofregamente dessa mulher, como quem se abraça a um colchão infecto e sebento, cheio porém, de apólices da dívida pública.

Amou­a com todo o ardor da sua ambição, cercou­a de carinhos, de desvelos, de meiguices. Melhorou a sua casa comum de residência, comprou boa roupa, assinou jornais, freqüentou teatros e reuniões familiares, afinal conspirou com alguns colegas a respeito de uma comenda da Vila Viçosa, e aumentou sorrateiramente duas linhas em cada mofina contra o coronel.

No prazo marcado pela fisiologia, Genoveva, deitou ao mundo uma criança. Era menina e foi batizada com o doce nome de Ambrosina.

É deste ponto que principia o maior interesse das memórias do nosso pobre condenado.

(continua...)

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