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#Contos#Literatura Brasileira

O pai

Por Machado de Assis (1886)

— Que diz esta carta, meu pai? perguntou Emília levantando os olhos para Vicente. Vicente olhou para ela, atirou a carta para uma gaveta, fechou-a, e foi sentar-se em um sofá.

— Que dizia aquela carta?

— Minha filha... tens coragem?...

— Tenho... mas...

— Escute bem.

Emília ajoelhou-se aos pés de Vicente e com a cabeça nos joelhos deste escutou.

— O que te vou dizer é grave, continuou Vicente; prepara-te. Para que enganar-te mais tempo? Melhor é que te desengane de uma vez. Emília, Valentim não te ama, não volta cá, dispensa-te da fé que lhe juraste.

— Ah!

Foi um grito, um só, mas que parecia saído do fundo do coração e que devia ir ecoar na estância da eterna justiça.

Emília caiu sem sentidos.

Vicente enganara-se.

Uma tranqüilidade mais aparente que real fizera-lhe supor que Emília podia suportar o golpe daquela revelação.

Isto foi o que o animou a falar.

O grito de Emília teve um eco em Vicente. O velho soltou um grito igual quando viu a filha a seus pés sem dar acordo de si.

Ao princípio supô-la morta.

— Minha filha! Morta! Morta!

Prestaram-se a Emília os primeiros cuidados.

O infeliz pai, quando teve conhecimento de que a filha ainda vivia, respirou de alívio. Depois mandou chamar o médico.

O médico veio, e depois de examinar a moça disse que respondia pela vida dela.

— Sr. doutor, disse Vicente ao médico à porta da rua, a morte desta menina é a minha morte. Salve-a!

— Pode ficar descansado, respondeu o médico.

Então começou para Vicente uma vida de dedicação. Como exatamente nas vésperas tivesse recebido o decreto de aposentação, achou-se ele livre da obrigação de freqüentar a secretaria. Podia ser todo para a filha. Dias e noites passou-as ao pé do leito de Emília, consolando-a, animando-a, pedindo-lhe que achasse na própria enormidade do crime de Valentim razão para desprezá-lo. A ciência e os conselhos animadores de Vicente obraram de comum no restabelecimento de Emília. No fim de um mês, a moça estava de pé.

Enquanto se achava fraca, e como já não houvesse razão para tocar no doloroso assunto da perfídia de Valentim, o pai de Emília esquivou-se a falar-lhe dos motivos que tinham prostrado a filha.

A convalescença correu regularmente. O que não se pôde vencer foi a tristeza de Emília, mais profunda então do que outrora.

Muitas vezes a moça esquecia-se do pai e de todos, e com o olhar fixo e sem expressão parecia entregue a dolorosas reflexões.

Nessas ocasiões Vicente procurava distrai-la de algum modo, sem, todavia, aludir a nada que fosse de Valentim.

Enfim, Emília ficou completamente restabelecida.

Um dia Vicente, em conversa com ela, disse-lhe que passada a funesta tempestade do coração cumpria-lhe não se escravizar a um amor que tão indignamente votara a Valentim. Estava moça; considerar empenhado o coração naquele erro do passado era cometer um suicídio sem proveito, nem razão legítima.

— Meu pai, assim é preciso.

— Não é, minha filha.

— Afirmo-lhe que é.

— Tão generosamente pagas a quem foi tão cruel para contigo?

— Meu pai, disse Emília, cada um de nós foi condenado a ter neste negócio uma catástrofe. É a sua vez.

— Explica-te.

— Meu pai, disse Emília, fechando o rosto nas mãos, eu sou dele quer queira quer não. Uma idéia pavorosa atravessou o espírito de Vicente. Mas tão impossível lhe pareceu, que, sem dar crédito à imaginação, perguntou a Emília o que queria dizer. A resposta de Emília foi:

— Poupe-me à vergonha, meu pai.

Vicente compreendeu tudo.

O seu primeiro movimento foi repelir a filha.

Levantou-se desesperado.

Emília não disse uma palavra. No fundo do abismo da desgraça em que se via, não podia desconhecer que a indignação de Vicente era legítima e que devia respeitá-la. Vicente fez mil imprecações de ódio, mil protestos de vingança.

Passada a primeira explosão, e quando, extenuado pela dor, Vicente caía em uma cadeira, Emília levantou-se e foi ajoelhar-se aos seus pés.

— Perdão, meu pai, exclamava ela entre lágrimas, perdão! Conheço todo o horror da minha situação e respeito a dor que meu pai acaba de sentir. Mas vejo que mereço perdão. Eu era fraca e amava. Ele era insinuante e parecia amar. Nada disto me lava do pecado; mas se a indignação de um pai pode encontrar atenuação no ato de uma filha, meu pai, eu ouso esperar isso.

Vicente repeliu Emília com a mão.

Emília insistiu, implorou, desfez-se em lágrimas, em súplicas, e em lamentos. Pediu pela alma da mãe que Vicente não juntasse à dor da perfídia do amante a dor da maldição paternal.

A voz do arrependimento e da contrição de Emília teve eco no espírito de Vicente. O velho pai, chorando também, voltou os olhos para a filha e estendeu-lhe os braços. Na consciência de Vicente Emília estava perdoada.

Mas o mundo?

(continua...)

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