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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

— Qual! espera : no fervor d'aquella desordem, as moças assustão-se, e minha irmã com as suas amigas, tremendo e gritando, abração-se comigo.

— Feliz Constancio !

— Minha mãe ralha, e eu procuro socegal-as .... mas ellas não me deixão senão quando o ruido serena e o povo se resolve a retirar-se : emfin dou parabéns á minha fortuna ao verme de novo em casa; despeço-me de minha mãe, e vou sahir; lembro-me porém de minha bolsa de seda, e dáme vontade de beijal-a ainda uma vez : metto a

mão no bolso, e...

— E o que?...

— Oh ! tinhão-me furtado a bolsa de seda ...

— Deveras ?...

— É como te digo : aproveitando a desordem que succedeu á catastrophe do balão, uma mão subtil furtou-me a bolsa de seda.! não sei como não morri de desespero !

— E com razão.

— E queres saber quem foi que furtou a bolsa?...

— Quem ?...

— Foi ella.

— Ella?

— Sim, a bella mysteriosa, ella mesma.

— Estás sonhando, Constando.

— Ora! ... deixou-me uma prova d'isso.

— Como ?

— Furtando-me a minha querida bolsa, deixou em logar d'ella um bilhete escripto com uma lettra tão habilmente descaracterisada que nem o diabo seria capaz de adivinhar a mãosinha que o escreveu.

— E esse bilhete?...

— Continha estas breves palavras ; « Furto-te a bolsa de seda, que recorda as nossas loucuras, Uma barreira indestructivel nos separa. Adeus para sempre. D'oravante não serei mais a tua bellamysteriosa. »

— E acabou-se a historia.

— Oh ! antes acabasse ahi ! ficaria ao menos sendo um bello sonho da minha vida.

— Pois continua ainda ?...

— Sim ; depois de reflectir um pouco, entendi que o bilhete era um novo logro que me estava preparado, e que a bella mysteriosa pretendia somente, tirando-rae a esperança de tornar a encontral-a, afastar-me da casa da familia pobre para ella poder ir lá a seu gosto ; determinei, portanto continuar a fazer tudo por vêl-a e conhecel-a.

— Mas, Constancio, tu já podes desconfiar de quem ella seja : olha, provavelmente quem te furtou a bolsa foi uma das moças que se abraçarão comtigo ; o bilhete falla em barreira indestructivel, o que quer dizer que a bella mysteriosa é casada, e por consequencia...

— Tudo isso pensei eu ; e por fim de contas lembrei-me de que todas as sujeitinhas que me abraçarão, andão doudas por achar marido, o que é o mesmo que dizer que todas ellas são solteiras.

— Continua a tua historia.

« — Com a minha idéa na cabeça, logo que anoiteceu parti para a casa da familia pobre : entrei e vi a velha e seus íilhinos chorando.

« — Que novidades ha ?... perguntei : o me nino perigou?...

« — Ao contrario, senhor, respondeu-me a velha ; está quasi bom, graças aos seus dous bemfeitores.

« — E então porque chorão ?...

« — Oh! senhor! é a nossa bemfeitora, é o nosso bom anjo, que hontem á noite nos fez

as suas despedidas, e que não volta mais.

Senti andar-me a cabeça á roda : disse adeus á velha, e sahi; eu estava suffocado... precisava de ar. »

— Pobre Constancio !

— Os obstaculos accendião ainda mais a paixão que me devorava; era-me indispensavel tornar a encontrar-me com a bella. mysteriosa, com essa mulher singular, cujo véo eu quizera queimar com o fogo dos meus olhos, com essa mulher poética, romanesca, vaporosa que se fazia amar sem mostrar o rosto! De subito parei, e reflecti.

— Quem sabe?... disse comigo mesmo: quem sabe se as despedidas feitas á velha não são tão mentirosas como as do bilhetinho que me poz no bolso?... quem sabe se não é ainda o mesmo systema empregado para me arredar d'aquella casa?

« Voltei para traz e então mais cauteloso, escolhendo as ruas c os beccos menos freqüentados, e por onde eu nunca passava, tornei a dirigir-me á casada família pobre.

« Quando me achei perto, approximei-me nas pontas dos pés... cheguei-me á rotula, que por signal abria-se para dentro, conforme o disposto nas posturas da camara municipal. »

— Ora, Constancio!... que posturas tão sem pés nem cabeça!... esfriaste a narração com ellas.

— Tens razão : deita fora as posturas.

— Pois sim; mio façamos caso d'ellas... também ninguém faz. Vamos á historia : tinhas chegado á rotula.

__ Cheguei... olhei para dentro... e vi...oh!

— O que ?

— Era ella !...

— Quem ?... a bella mysteriosa ?...

— Sim; não contava mais comigo, e tinha esquecido todas as precauções que costumava tomar. O seu véo estava deposto sobre uma cadeira ao pé da porta; e ella conversava com a velha, sentada com as costas voltadas para a rua.

— E tu?...

— Eu?... que pergunta! eu estava olhando, e por consequencia estava com a cara voltada para dentro.

— Não é isso : que fizeste ?...

(continua...)

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