Por Martins Pena (1846)
PAULINO, no mesmo – Ele saiu... E eu espero que o senhor não me lance ao mar dentro deste saco. Ande, tire-me daqui. Eu bem sei por que o senhor também está cá; tudo tenho ouvido. Veio por uma e vim por outra... Ande, tire-me daqui e fujamos... Ande depressa, uf! (Alexandre, que durante o tempo que Paulino fala está como pensativo, exclama, logo que ele tenha acabado: Balbina, Balbina! e sai pela direita, correndo.)8
CENA XII
PAULINO, só, dentro do saco.
PAULINO – Então? Ó senhor? Foi-se... E esta! (Pôe-se em pé.) E deixou-me só, dentro do saco... Se eu pudesse arrebentá-lo! (Faz esforços.) Nada! Estou aviado, quero dizer, estou ensacado... Ó amigo? (Vai dar alguns passos, atrapalha-se no saco e cai.)Ai, que fiz um galo na testa. Quem me mandou cá vir? (Sentando-se:) Sr. Paulino, sr. Paulino, quem diria a vossa mercê que um dia se veria assim preso... (Ajoelhandose:) Minha Nossa Senhora do Amparo, amparai-me nestes apertos, que eu vos prometo um saco de café, um saco de feijão e um saco de farinha! (Levantando-se:) Mas no entanto, esperando que a Senhora do Amparo se lembre de mim, não será mau que eu também faça alguns esforços para safar-me. A porta deve ser deste lado; o diabo é se encontro o meu assassino... Vamos a arriscar, e caminhemos à maneira do sapo; senão, arrebento as ventas. (Principia a caminhar pela cena, saltando de pés juntos.)
CENA XIII
Entra ALEXANDRE e BALBINA.
ALEXANDRE, entrando – Só assim nos salvaremos!
PAULINO, parando – Ouço vozes...
ALEXANDRE – Tua madrasta já tomou a si; estava apenas atordoada pela queda que deu pela escada, fugindo de teu pai. Lá ficou deitada na sua cama. Está salva; agora, salvemo-nos também... E só o meio de que te falei... E uma vez fora daqui. tenho o meu plano...
BALBINA – A ti me entrego. (Alexandre beija-lhe a mão.)
[ALEXANDRE] para Paulino, que está imóvel – Ah, senhor?
PAULINO, ouvindo que falam com ele, salta apressado, fugindo – Deixe-me, deixe-me, não me mate, sr. Pedestre!
ALEXANDRE, correndo atrás dele e segurando – Não se assuste, sou eu...
PAULINO – Ah, é o senhor?
ALEXANDRE – Sim, sou eu. Quer sair deste saco?
PAULINO, com presteza – Sim senhor!
ALEXANDRE – Ver-se na rua...
PAULINO – Sim senhor!
ALEXANDRE – Livre e desembaraçado?
PAULINO – Sim senhor!
ALEXANDRE – Jura fazer o que eu lhe disser?
PAULINO – Juro, sim senhor!
ALEXANDRE – Palavra de honra?
PAULINO – Palavra de honra!
ALEXANDRE – Muito bem. (Desata o saco.)
PAULINO, botando a cabeça fora do saco – Ah, enfim!
ALEXANDRE – Tenho a sua palavra...
PAULINO – Conte com ela. (Tendo saído do saco.)
ALEXANDRE, para Balbina – Balbina, vem, não tenhas medo. Este é o único modo, como te disse, de sairmos daqui. (Alexandre põe o saco no chão, aberto, e Balbina, colocando-se sobre ele, deixa que Alexandre levante as bordas, e vê-se assim dentro do saco.)
PAULINO – Que diabo é lá isso? Aqui nesta casa ensaca-se gente como farinha... E como hei de eu sair daqui?
ALEXANDRE, amarrando a boca do saco – Quer vir outra vez para o saco?
PAULINO – Nada, quero saber como hei de sair desta caverna de assassinos.
ALEXANDRE – Acompanhando-me quando eu sair com o pedestre, levando este saco às costas.
PAULINO – Bravo, compreendo excelentemente! É melhor do que ser atirado ao mar. (Ouve-se bulir na fechadura.)
ALEXANDRE – Ele aí vem....... (Paulino corre, apressado, e esconde-se no armário, e Alexandre põe Balbina dentro do saco ao ombro.)
CENA XIV
Entra o PEDESTRE.
PEDESTRE – Tudo está em silêncio, não passa ninguém... Fui até ao canto e não avistei vivalma. Vamos, com cuidado; depois virei buscar o outro corpo. Apaguemos a luz. (Apaga a vela e sai seguido de Alexandre, que leva Balbina as costas. Tendo saído, fecha a porta por fora.)
CENA XV
PAULINO, logo que o PEDESTRE e ALEXANDRE saem, abre a porta do armário e vai saindo com cautela.
(continua...)
PENA, Martins. Os ciúmes de um pedestre ou o terrível capitão do mato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2155 . Acesso em: 29 jan. 2026.